
RIO GRANDE, O MAR E A CIVILIZAÇÃO
Publicado no site em 31/07/2007
Euripedes Falcão Vieira*
Num ponto remoto da imensidão cósmica, e num tempo também remoto, a natureza escolheu um pequeno planeta e nele esculpiu montanhas e vales, florestas e campinas, extensos rios e oceanos profundos. Encantada com sua obra, a natureza a animou com uma das forças primordiais do universo: a vida. Como tudo no universo, a vida na Terra evoluiu, alcançou a fase superior da inteligência e, com ela, iniciou o impulso civilizador. Sintamo-nos, pois, recompensados por termos nascido e nos tornado parte da existência viva, e erguido, com labor inaudito, o sucesso da civilização!
Aqui, no Rio Grande debruçado sobre a imensa janela voltada para o oceano profundo, e o mundo distante, contribuímos, com a parcela de nosso trabalho, para o engrandecimento da terra de Silva Paes. O grande oceano, das ondas, das correntes e da diversidade viva, une-nos ao mundo sem fronteiras da modernidade que se instala. Andamos nos limites do tempo de modernidades, a que se distancia e a que se aproxima. Este é o mundo das mudanças e rupturas; o mundo das eras. Mas, afinal, em que era entramos? A dos números ou a da incerteza? Os números estão ao nosso redor, dominando-nos e marcando nossos eventos. A incerteza nos conduz ao tempo sem limites, o indefinido da vida. Ah, os números são a própria incerteza!
A modernidade global não representa apenas outra etapa da longa evolução da modernidade industrial. Não foi apenas um nó desamarrado, mas um golpe que a cortou, uma ruptura, uma clivagem que separou definitivamente duas épocas: a da sociedade industrial e a da sociedade cibernética. Olhando pela perspectiva da totalidade, a civilização humana é um sucesso. As parcialidades, porém, revelam descompassos, dissonâncias, atrasos e brutalidades na mesma escala de grandeza. Mas, ainda assim, é o sucesso da civilização que enaltece o sujeito individual ou coletivo.
O sujeito pós-moderno é um ente deslocado de alguma coisa, absorvido permanentemente por padrões comportamentais mutantes, seguindo sempre os novos costumes, as novas tecnologias, as novas exigências do ordenamento econômico. Os signos, as imagens, os símbolos, o conhecimento e a informação incorporados pelo sujeito social vêm de lugares imprecisos, de realidades distantes, tornando-se, rapidamente, o seu cotidiano. Adapta-se, mas não consegue escapar à angustiante dualidade: um mundo exterior, com suas contradições, conflitos e inconformismos, e o mundo interior que o anima, e no qual constrói seu ideário de desejos. Ele, o sujeito pós-moderno, vivencia na interatividade global os significados da nova realidade, da qual recolhe, por vezes, a exortação de transgressões a seu consciente de vida. De outra parte, porém, reage, vinga-se, povoando sua mente com a majestade da sociedade simbólica que ele considera justa e solidária.
E nós, riograndinos, como estamos? A civilização chegou-nos pelo mar, e por ele ligamo-nos em teia aos objetos geográficos da arquitetura portuária global. Essa é nossa primeira identidade. Outras teias, materiais e virtuais, não tão completas como a oferecida pelo grande oceano, fazem nossas uniões, relações e outras identidades. Da fundação até o presente evoluímos por ganhos e perdas, e assim continuaremos; é assim que a civilização avança. A cada perda, contudo, devemos acrescentar sempre um ou mais ganhos!
*Doutor em Geografia e Bacharel em Ciências Econômicas. Professor emérito do Rio Grande do Sul.
Ex-Reitor da FURG