
A Original Planta Comercial de Porto Alegre
Publicado no site em 26/05/2009
Liana Bach Martins*
Gervásio Rodrigo Neves*
A planta Commercial de Porto Alegre,publicada em 1900, foi uma iniciativa da “Empreza Annunciadora S.R. Weiss & Cª”, e impressa na Lithographia Paulo Robin & Pinho, no Rio de Janeiro. Ela registra quatro anúncios comerciais de firmas de Porto Alegre, provavelmente os patrocinadores para ter suas marcas em destaque. São elas: a “Companhia de Seguros A Educadora”, cuja sede ficava na Praça da Alfândega; a “Casa de Saúde Bela Vista”, hospital que mais tarde teve seu prédio vendido ao Hospital Militar; a casa “Luiz Voelcker & Cª”, na Rua dos Andradas, uma tradicional ferragem da cidade, e a “Carpintaria Porto Alegrense”, situada na Rua Voluntários da Pátria. Certamente esta seja a primeira ou uma das primeiras plantas comerciais da cidade, que de fato indique localização dos estabelecimentos comerciais, industriais, de serviços, logradouros públicos; algo que se tornaria comum a partir da década de 40. Também é interessante notar o uso de desenhos em perspectiva para representar os principais prédios públicos, igrejas, hospitais. Esse recurso fora usado na Planta arquitetural do Rio de Janeiro, de 18741, com maior requinte técnico e artístico.
Porto Alegre, na virada do século XIX para o século XX, é uma cidade em processo de modernização. Tanto o governo estadual como o municipal querem transformar a cidade numa espécie de “sala de visitas”2 da administração de caráter positivista, que está no poder desde 1889. E, para tanto, uma série de modificações estava sendo realizadas e projetadas, para retirar da cidade o seu aspecto provinciano e transformando-a numa cidade moderna. Um exemplo dessa tendência foi a construção da nova Intendência, um edifício que refletia a arquitetura eclética e os padrões positivistas tanto no seu projeto, como nas estátuas decorativas da fachada.
A planta comercial de Porto Alegre reflete este momento ao registrar os logradouros, os prédios públicos, as instituições civis militares, as casas de comércio, os bancos, etc, sendo que alguns desses prédios estão desenhados, enquanto outros apenas são nomeados. Serve como “guia” de localização dos pontos comerciais, de serviço e industriais da cidade.
Nesta projeção do centro de Porto Alegre, tem-se uma visão da península na qual a cidade fora construída, com seu porto, em um dos lados, e a Praia de Belas, do lado oposto. A parte central do mapa compreende o alto do promontório, tendo como eixo a Rua Duque de Caxias. Nesta destacam-se, à direita, as construções da Igreja Matriz, do Palácio do Governo, numa representação do projeto aprovado para o local e que não chegou a ser realizado, e ao lado a sede da Assembléia dos Representantes. À frente, a Praça Marechal Deodoro, com jardins artisticamente desenhados, com o chafariz ao centro, e do outro lado os prédios gêmeos do Teatro São Pedro e do Palácio da Justiça3. Ainda ladeando a Praça, o Palácio Provisório4, com suas torres, e o prédio da Bailante, local de bailes, freqüentado pela população porto-alegrense.
Seguindo pela Rua Duque, em direção leste, aparecem relacionados alguns médicos; na esquina com a Rua General Paranhos5, há a Secretaria de Polícia e na quadra seguinte, as escolas do Liceu e de Aquiles Porto Alegre. Na intersecção seguinte, está o Quartel do 8° Batalhão.
Neste trecho em direção ao sul, aparece uma grande faixa verde, o campo da Redenção, uma área conhecida até o século anterior como Várzea, que estava destinada por decreto de 24 de outubro de 1807, do Governador Paulo da Gama, a ser uma área pública para descanso e lazer, não podendo ser ocupada. Entretanto, no final do século XIX, algumas construções foram feitas pelo poder público a despeito do decreto, uma delas no lado sul era a Escola Militar, que aparece representada no mapa, e a outra a Escola de Engenharia, cujo prédio foi concluído em 1901, também registrado no mapa. Entre as duas construções, a representação do velódromo, local destinado às corridas de ciclismo. Ainda ao sul, pode-se notar o curso sinuoso do Arroio Dilúvio, cortando toda a “Cidade Baixa” e indo desaguar próximo à atual Rua Espírito Santo. Hoje, com a retificação realizada durante a década de 1940, o arroio desemboca mais ao sul, eliminando os meandros e tornando inútil a ponte de pedra que servia de ligação entre os dois lados do riacho.
Do lado oeste do campo da Redenção, o prédio da Igreja do Bonfim, que daria o nome ao bairro; a Igreja da Conceição e a Santa Casa de Misericórdia, instituição tradicional, fundada em 1803, cujo primeiro hospital foi concluído em 1826. Sobre essa instituição e o local da construção do hospital escrevera Saint-Hilaire, em sua passagem por Porto Alegre em 1820:
“Fora da cidade, sobre um dos pontos mais elevados da colina, onde ela se acha construída, iniciou-se a construção de um hospital, cujas proporções são tão grandes, que provavelmente não seja terminado tão cedo; mas a sua posição foi escolhida com rara felicidade, porque é bem arejado, bastante afastado da cidade, para evitar contágios; ao mesmo tempo, muito próximo para que os doentes fíquem ao alcance de socorro de qualquer espécie”.6
Em 1900, o local do hospital já não estava tão afastado, aos poucos, a cidade foi incorporando-o com a abertura das ruas que ligavam a Várzea ao Caminho Novo, a atual Voluntários da Patria.
Na parte central do mapa, na Rua São Jerônimo, atual Jerônimo Coelho, está o prédio do Corpo de Bombeiros e na rua Riachuelo, a sede da Cia. Telefônica, onde hoje está a Biblioteca Pública, sede imaugurada em 1922.
Nas quadras que se seguem até o rio encontra-se o centro comercial da cidade. Desde a fundação de Porto Alegre, a Rua da Praia é a rua do comércio na cidade. Nicolau Dreys, em sua passagem pela cidade, na primeira metade do século XIX, descrevia assim as ruas da cidade, especialmente a rua do comércio:
“...correm paralelamente à direção do morro, isto é, quase Norte e Sul, elas se comunicam entre si por ladeiras ou ruas transversais mais ou menos íngremes, que as cortam em ângulo reto; a rua mais extensa, e a mais importante, em respeito ao comércio e à população, é a da Praia, que se prolonga em torno do morro a Oeste, à borda da lagoa; nesta rua, formada por casas geralmente altas, de estilo elegante e moderno, quase todas habitadas por negociantes, é que parece se ter concentrado o negócio, deixando às outras classes da sociedade as ruas abertas sobre os planos superiores.”7Portanto, podemos notar no mapa de 1900, a grande concentração de indicações de casas comerciais na Rua dos Andradas ou Rua da Praia, em especial nos quarteirões mais centrais, próximos à Praça Senador Florêncio. Esta praça está representada no mapa com áreas verdes, um chafariz de um lado e ao centro um prédio no qual funcionava a Alfândega. Atrás da praça está o cais com trapiche que se estende sobre o rio com uma pequena construção na sua ponta, onde atracavam os barcos para dembarcarem as mercadorias. Sobre o prédio modesto da Alfândega, demolido no início do século XX para dar lugar à “modernidade” ditada pelos positivista, diria Saint-Hilaire que “a vista desse cais seria de um belo efeito para a cidade”8.
Cartão postal; autor desconhecido; c. 1900.
Acervo Museu de comunicação Social Hipolito José da CostaPela Rua dos Andradas em direção oeste, além dos prédios comerciais, está uma área de quartéis, com os dois prédios do Arsenal de Guerra, o Quartel da Brigada Militar. Também aparece representada a Igreja das Dores, a Praça da Harmonia9 e, na ponta da península, a Higiene Pública, a Casa de Correção e o Gasômetro10, que fornecia gás para a iluminação pública.
Entre a Praça da Alfândega e o Mercado Público, em especial na Rua Sete de Setembro, estão localizadas casas comerciais importadoras e expotadorass, além do setor de crédito. Sobre essa região o italiano Vittorio Buccelli comentar em sua passagem por Porto Alegre:
“... é a rua dos grandes negócios, onde se encontram muitos escritórios comerciais e de crédito, dentre os quais o Banco do Comércio e o importante Banco da Província, que é o mais antigo do Estado.”11O Mercado Publico destaca-se como um grande edifício à beira do rio e ao lado da Prefeitura, à sua frente uma grande praça, coberta de verde e com um chafariz, ao centro. Afinal os chafarizes, ainda funcionavam com fontes abastecedoras de água para a população, não tendo apenas função decorativa. O Mercado, teve sua construção concluída em 1869, tendo em sua planta original apenas um andar, como mostra a representação do mapa, com quatro torreões nas esquinas. O segundo andar só foi construído na década de 1910.
A partir do entrocamento da Rua Marechal Floriano com a Praça 15 de Novembro tem início a Rua Voluntários da Pátria e ali também encontramos um grande número de indicações de casas comerciais, nos dois lados da rua. Mas nem sempre foi assim. No início do século XIX, a região era uma área de chácaras e sobre ela escrevia Dreys: “uma bela alameda plantada da banda do rio de árvores frondosas: chama-se o Caminho Novo e prolonga-se, quase sempre com os mesmos ornatos, até perto da embocadura do rio Gravataí” e aconselhava os leitores a fazerem esse passeio: “é certamente um dos mais excelentes passeios que se pode ver”.12 Mas esse perfil foi aos poucos se modificando e a região tornou-se, ainda no final do século XIX, uma área de atividade industrial e comercial da cidade.
Tanto que no início do século XX, outro viajante, Gustav Königswald, assim caracterizou a região:
“Os estabelecimentos industriais de maior importância como, estaleiros, fábricas de máquinas, serrarias a vapor, fábricas de móveis e outras, localizam-se a maior parte à Rua dos Voluntários, também chamada de Caminho Novo.”13
Observando o mapa nota-se que do lado do rio, tanto na Rua Voluntários, como na Rua Sete de Setembro, há um grande número de trapiches que se estentem pelo rio. Estes servem de cais particulares para as casas e indústrias da região descarregarem ou embarcarem mais rapidamente suas mercadorias. Em certa época, segundo os cronistas, somavam quase cem trapiches pela orla do rio, requerendo-se que a administração municipal fizesse algo para disciplinar a circulação de pequenas, médias e grandes embarcações. Assim no final da década de 1910, inicia-se a construção do cais do Porto da Avenida Mauá. Sobre esses trapiches, Buccelli escrevera em seu diário:
“... são grandes armazéns construídos junto ao cais, onde houver, ou às pontes de madeira construídas sobre palafitas, que avançam da praia até o ponto onde a profundidade da água permite ao navio manter-se à superfície. Na maioria das vezes servem de depósito temporário de produtos importados ou para exportação e de entrepostos alfandegários. Por isso, estão sempre cheios de todo o tipo de comestíveis, embalados nas formas mais diversas ou ensacados, formando verdadeiras pirâmides que chegam ao teto.”14Essa atividade comercial intensa também aparece representada no mapa pelas embarcações que se encontram no rio, ao longo de toda a orla norte e oeste da península. Também, em relação ao rio, chama a tenção a existência de um clube de regatas, situado junto à Praça da Alfândega. Não se pode esquecer que neste período os clubes de remo e de vela eram uma atividade desportiva trazida pelos imigrantes alemães.
O mapa ainda traça o trajeto das principais linhas de transporte urbano de Porto Alegre. Eram elas: a Estrada de Ferro Porto Alegre- Novo Hamburgo, cuja estação final situava-se na Voluntários da Pátria; a Estrada de Ferro Ponta do Dionísio, que partia da Ponte de Pedra até a Ponta do Dionísio e levava os dejetos da população para ali serem jogado no rio; a Companhia Carris Urbanos15 e a Cia. de Ferro Porto Alegrense, que serviam com seus bondes a área central e alguns arraiais da cidade.
Em resumo, esta planta é absolutamente original na cartografia urbana de Porto Alegre e se caracteriza em primeiro lugar pela originalidade do senho, realizado em projeção azimutal, resultante da projeção de um globo sobre um plano. Ssim Porto Alegre é representada como um globo ou um astro. Não é ocasional que a cor da periferia do círculo seja o preto, representando o universo.
Embora azimutal, o deseenho não registra – em função da pequena área – as linhas das latitudes (que seriam linhas retas divergentes originadas no centro da projeção) e as longitudes, representadas por círculos concêntricos.
A segunda originalidade é que se constitui, simultaneamente, numa representação cartográfica sistemática e temática, possibilitando sua releitura como uma verdadeira planta funcional de Porto Alegre.
Certamente, esta planta é uma das jóias da cartografia urbana da capital e que se encontra no acervo do IHGRGS pela generosa doação dessa rarideda pelo Professor Raphael Copstein.
* Mestre em Geografia, UFRGS. Historiógrafa da SEDAC e Pesquisadora voluntáriano IHGRGS.* Prof. Livre docente da UFMG; Titular aposentado da UFRGS. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.
1 Esta planta é de autoria de João Rocha Fragoso e encontra-se disponível para consulta no acervo digital da Fundação Biblioteca Nacional. http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_cartografia/cart175745.pdf
2 BAKOS, Margareth Marchiori. Porto Alegre e seus eternos intendentes. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.
3 Esta foi destruído por um incêndio criminoso em 19 de novembro de 1949.
4 Hoje o Forte Apache, como ficou conhecido, sedia o Memorial do Ministério Público Estadual.
5 Atual Av. Borges de Medeiros.
6 SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal: 2002, p. 71.
7 DREYS, Nicolau. Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul. Porto Alegre: Nova Dimensão/EDIPUCRS, 1990, p. 67.
8 SAINT-HILAIRE, 2002, p.68.
9 Parte desta praça foi demolida para dar lugar ao cais do porto. Hoje se chama Praça Brigadeiro Sampaio.
10 Este gasômetro não é a atual Usina do Gasômetro, esta inaugurada em 1928, mas a usina de gás que ali funcionava desde 1874.
11 BUCCELLI, Vittorio. Un viaggio a Rio Grande Del Sud. Milano: Officine Cromo-Tipografiche L. F. Pallestrini & Cia., 1906. p. 73
12 DREYS, 1990, p.68
13 KÖNIGSWALD, Gustav. Rio Grande do Sul. São Paulo: Verlag des Verfassers, p.50.
14 BUCCELLI, 1906. p. 81.
15 A Companhia Carris Urbanos e a Cia. de Ferro Porto Alegrense uniram-se em 1908 dando origem á Cia Força e Luz, que em 1926 daria origem a Cia Carris Porto Alegrense, responsável apaenas pelo trans porte público na cidade.