
MEU IRMÃO, O MEDO
Publicado no site em 15/07/2011
Blau Souza
Parece que foi ontem. As estações de rádio alternavam composições marciais com discursos inflamados a incitarem os sentimentos patrióticos dos gaúchos. A perplexidade pela renúncia de Jânio Quadros, que cedera a forças ocultas, foi substituída pelos percalços a serem enfrentados por João Goulart. Despreocupado visitante da China, Jango teria de vencer forças nada ocultas se quisesse assumir o poder. Era preciso empolgar o povo na defesa da legalidade, e Brizola fez isso como ninguém: seu cunhado teria de assumir o poder como exigência da constituição - O povo do Rio Grande assim o queria.
Apresentavam-se voluntários das mais diversas procedências e gerações. Jovens, com ou sem afinidades partidárias, preparavam-se para a luta em favor da legalidade e o faziam com o entusiasmo e o desprendimento dos inocentes. O restaurante universitário fervilhava. Lá se organizavam forças auxiliares, ao som de dobrados e com um material bélico semântico, verbal. Como estudante de Medicina, eu classificava medicamentos ou ajudava na tipagem sangüínea de centenas de voluntários. Eles vinham prontos a darem seu sangue de maneira civilizada, transfundido; ou derramado de forma heróica em hipotéticos campos de batalha.
A expectativa nervosa aguçava a sensibilidade para fatos onde o cômico aliviava a tensão crescente. Não esqueço o gauchão enorme, pilchado a caráter, aguardando na fila para o exame de sangue e que logo virou referência obrigatória. Ao ter o dedo picado por minúscula lanceta, o homenzarrão desabou, suando frio e revirando os olhos. Quando isso aconteceu, lembrei do velho gaúcho, rezinguento, que visitara o restaurante universitário pela manhã e perguntara com voz irritante:
- Onde estão os combatentes, os homens de briga? - E quando indicamos os muitos homens a circularem, pilchados, quase dançando pelas dependências do centro de resistência, ele concluiu: - Não, esses são de trova e dança... Eu quero os de peleia.
Os sentimentos eram intensos e exigiam pressa. O amor à causa não era exclusivo e a convivência com o medo estreitava laços, agregava incertezas solitárias. Afinidades instantâneas facilitavam amores em casais dispostos a dar e a retirar tudo da vida em perigo. Namoros acelerados nasciam nos percursos entre o restaurante na Azenha, os centros acadêmicos e a Praça da Matriz. Também aí, não contrariei a regra e me restaram ternas lembranças.
Não foram muitos os dias de lavagem cerebral. Chegou a hora decisiva na Praça da Matriz, mais cheia de expectativa que de gente... E eu estava lá. Os olhos fixavam-se nas sacadas do Palácio Piratini, onde um Brizola tresnoitado surgia de tempos em tempos. Ouvidos assustados adivinhavam barulhos. Gargantas secas, vazio no estômago, o coração disparando e ali estávamos a arrastar os bancos da praça na tentativa de armar barricadas. Não era conhecida a posição do exército e os boatos se multiplicavam. Firmava-se a sensação de estarmos vivendo momentos sem volta, históricos. O crescendo era intolerável e momentos de uma infância feliz, bucólicos, teimavam em saltar da memória diante das incertezas de um futuro transformado em presente, ali e sem alternativas honrosas. De repente, foi anunciado que o General Machado Lopes, comandante da Terceira Região militar, apoiava a posse do vice-presidente: era pela legalidade. Abraçados, olhos úmidos, todos cantamos o Hino Nacional.
Por muito tempo os aspectos semicômicos ocupavam todo o espaço quando eu falava da participação na Campanha da Legalidade. Filtros de conduta, individuais e públicos, resistiam a admitir o medo. O passar dos anos, a valorização das paixões da mocidade, a análise das reações pessoais e das massas mudaram o discurso. Eles me ensinaram que o medo educa, amadurece, é inato ao homem e exige de nós a coragem, até para admiti-lo. Vencê-lo como velho conhecido, tenho certeza...é bem mais fácil.