
FURG 30 ANOS
Publicado no site em 02/10/2007
Euripedes Falcão Vieira*
A criação da Fundação Universidade do Rio Grande, em 20 de agosto de 1969, representou um visionário esforço no sentido de consolidar, ampliar e redimensionar o ensino superior em nossa terra. Foi, à época, um desejo, uma iniciativa, uma demonstração da capacidade de criar valores e significados que correspondessem não a um simples reflexo da sociedade, mas, concretamente, a sua própria expressão. Foram os fundamentos mais elevados da ação comunitária que animaram e guiaram os iniciadores do novo tempo para Rio Grande, o tempo da cultura, o tempo da geração do conhecimento, o tempo da nova morfologia social.
A FURG nasceu sob o signo da mudança. Ao ser instituída, incorporou as antigas unidades educacionais superiores existentes, então, organizadas sob a forma de faculdades isoladas, e vinculadas a diferentes dependências jurídico-administrativas. Logo de início, reestruturou-se, e partiu para a construção do espaço universitário, aberto e plural, destinado a criar e difundir as mensagens que transportam os valores da educação, orientados, fundamentalmente, para o futuro.
Nos primeiros anos de suas atividades, a FURG criou uma identidade físico-espacial, foi incorporada ao sistema federal de ensino superior e promoveu a categorização do corpo funcional. Suas estratégias institucionais marcaram profundamente a vida da comunidade. Hoje, a FURG representa um dos círculos do poder em Rio Grande: o poder acadêmico. Trata-se de um poder que não discrimina, de um poder que se abre às possibilidades de elevação pessoal, e coletivamente, expressa a qualificação comunitária. O espaço acadêmico da FURG é parte de um lugar no qual se fazem sentir diversas manifestações de poder em função da condição especial do território rio-grandino, no qual, de forma contígua, coexistem realidades diferenciadas em espaços globais e espaços da herança histórica. É como no Aleph de Borges, o lugar que contém diversos lugares sem se confundirem.
A história do tempo da Universidade do Rio Grande, breve e vitoriosa, em suas realizações e transformações orienta o pensamento para o cenário de um futuro que já transita neste final de século. Como será a FURG no futuro próximo, e como serão definidos os rumos para os sucessivos futuros? Quais as estratégias pedagógicas e de planejamento que irão alimentar o Projeto Institucional para as próximas décadas, já no novo milênio, e face as novas demandas sociais?
Há algumas premissas fundamentais a serem observadas no processo de reestruturação, que, certamente, marcarão a nova fase da FURG no III Milênio. São estratégias acadêmicas tanto para a organização estrutural, como para as decisões curriculares.
Uma nova ordem organizacional emergirá da mudança do conceito de universidade como órgão público para o de universidade autônoma. Essa mudança se aproxima no tempo da autonomia. Seria preferível que a concretização dessa medida ocorresse no âmbito da relação entre o poder vinculador do Ministério da Educação, com as instituições federais de ensino. O que estou afirmando é que a autonomia, necessária à autogestão responsável, e à qualificação das atividades universitárias baseadas na hierarquia do mérito e na excelência acadêmica, não deveria ser outorgada através de lei, de cima para baixo, e de igual aplicabilidade. Ao contrário, deveria ser um processo natural, aplicado caso a caso, gradualmente implementado, e periodicamente verificado. Independente, contudo, da forma como virá, a autonomia deve ser encarada, primordialmente, como a capacidade de autogestão, colocando à prova o saber-fazer, o saber-ser e o saber-agir que explicitam a capacidade de administrar as organizações. A nova estrutura, na era informacional precisa libertar-se das patologias organizacionais do normatismo, do burocratismo e do corporativismo, sustentando-se nos recursos das tecnologias virtuais, na flexibilidade orgânica e na descentralização do poder.
As estratégias pedagógicas, por sua vez, devem contemplar a nova concepção curricular que renega o currículo inflexível, previamente formulado e representativo da cultura estabelecida, aplicado a todos sem levar em conta as desigualdades pessoais e os diferentes potenciais da inteligência e, ainda, a ser cumprido em tempos acadêmicos definidos. Essa cultura elaborada, a cultura do passado, do corredor curricular sem alternativas deve ser substituída pela cultura pós-moderna, ou da alta modernidade, conforme Giddens. As profundas transformações na concepção do saber no futuro só poderão ser realidades em currículos flexíveis e renovados, permanentemente. As tecnologias da velocidade, que ditam os ritmos das mudanças sociais, econômicas e culturais pressupõem, portanto, nova estratégia curricular aberta e plural, e que permita a renovação seqüencial do conhecimento. As diretrizes curriculares e as avaliações de qualidade serão uma obrigação intrínseca das próprias instituições de ensino superior. Ao órgão público mantenedor financeiro e responsável pelo sistema federal de ensino, cabe, periodicamente, a verificação de qualidade.A Universidade pública e gratuita, locus do saber e da produção científica deve ser fortalecida e preparada para responder aos elevados interesses da nação. Nela, pela primazia do mérito e da qualidade acadêmica se objetiva alcançar os mais altos níveis da inteligência criativa e a elaboração de novas metodologias para abordagem dos problemas tangíveis e reais da organização social.
Na universidade pública deve ser cultivada, permanentemente, sem interferências políticas, ideológicas ou de qualquer tipo de dirigismo, a busca do saber e sua sempre renovada função no futuro da sociedade.
Os trinta anos da FURG, que hoje fixamos como um marco histórico, é uma lição do passado que transita pelo presente em direção ao futuro. A vida acadêmica se constrói e reconstrói no cotidiano das salas de aulas, dos laboratórios, das bibliotecas, nos corredores e nos bares, preparando a juventude para compor, na vida social ativa, as novas hierarquias sociais, econômicas e culturais, como partituras da grande sinfonia da vida. É nesses ambientes que o trabalho coletivo da comunidade universitária deixa, na seqüência do tempo, uma luz e outra luz e mais outra, como nos versos de Fernando Pessoa, a iluminar os caminhos da liberdade de pensar e criar.
A FURG é um signo. Signo da existência de uma causa, de uma causa que foi permanente ao longo de trinta anos, e que continuará a sê-lo nas trilhas do futuro. Uma causa ligada ao ambiente natural, à riqueza e à diversidade da vida nesta margem continental sul do Brasil. É como se falássemos ao mar, às areias e ao vento; ao brilho esbranquiçado da Lua, à quietude do outono, e aos nevoeiros do inverno; às flores da primavera e ao radiante sol do verão.
Hoje, nos amplos espaços do campus Carreiros, onde se somam os ideais, sonhos e decisões dos que construíram, dos que ajudaram, dos que dirigiram e dos que dirigem a Fundação Universidade do Rio Grande, se quedam, comovidos e esperançosos, professores e funcionários, do tempo passado e do tempo presente, pelo que já foi construído e pelo muito que será construído no amanhã.
Nossa homenagem e gratidão à FURG por nos ter oferecido a oportunidade de engrandecimento pessoal, e sobretudo, pela oportunidade de construir com cada aluno, a cada dia e a cada ano, o ideal de profissionalização, de socialização intelectual e de devoção à comunidade rio-grandina.*Reitor da Fundação Universidade Federal do Rio Grande no período 1972-1976. Discurso comemorativo em 20/091999.