FRAGMENTOS


Publicado no site em 05/03/2009


Euripedes Falcão Vieira

 

I

Há pouco menos de 04 décadas pisávamos o chão coberto apenas de relva rala, dunas oscilantes e sobre ele o movimento livre dos ventos do litoral sul. Um encantamento desafiador!
Mas, havia algo mais a nos seduzir na paisagem bucólica daquele recanto do Rio Grande.
Uma força telúrica penetrava nosso corpo, a dominar nosso mundo cognitivo; era uma energia que anunciava um ambiente de beleza arquitetônica, de brilho acadêmico e de engrandecimento para a sociedade do Rio Grande.
A voz dos ventos, e dos pássaros, nos dizia sem cessar: vai acontecer; vai acontecer.
E aconteceu. Hoje, nele - o ambiente da força telúrica - ergue-se belo, com bosques, lagos e fontes do conhecimento, o campus da FURG. A magia da natureza e da mente humana!

II

Leibniz, em 1715, escrevera para um amigo: o espaço é uma ordem de coexistências e o tempo uma ordem de sucessões. Newton separava o espaço do tempo e Einstein juntou os dois na unidade cósmica espaço-tempo. O universo é curvo e de partículas. Niemeyer disse: “não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura e inflexível, criada pela mão do homem. O que me atrai é a linha curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curva é feito todo Universo, o Universo curvo de Einstein”! Mas, como é o Universo das teorias atuais? Certamente, curvo; o espaço curvo como uma ordem de coexistências e o tempo também curvo como uma ordem de sucessões. É a glória de Leibniz!

III

Há pouco me senti cansado. Se o lado da vida é penoso fiquei curioso em saber como seria o lado da morte. Resolvi, então, morrer, provisoriamente. Deparei-me, de imediato, com o poeta Virgílio, o da Eneida. Estava à frente de um grande portal. Olhou-me com piedade e apontou para o alto. Sobre o enorme portal uma inscrição: vós que entrais deixai aqui todas as ilusões. Situei-me melhor: era o portal de entrada do inferno de Dante. Caro Virgílio, sem pressa, disse-lhe; antes eu gostaria de subir ao céu e falar com o São Pedro. Olhou-me com pesar e disse: é um pedido incomum e não tenho essa prerrogativa. Insisti. Isso vai custar-te um castigo dobrado, seguramente, junto ao Caronte, a horrível figura do barqueiro do rio Aqueronte que leva as almas pecadoras para as piores câmaras de tortura do inferno; e vai custar-me, também, alguma punição. Fiquei desolado o suficiente para o poeta correr riscos. Disse-me: sobe, mas espera o pior. No portal do céu dei a primeira batida e na terceira surgiu a figura de São Pedro com visível mau humor; batendo fortemente o enorme bastão partiu para o ataque: pecador, tu que vens de um planeta insignificante, de um país horrível de índios, brancos, negros e pardos, esses uma classificação que até hoje ninguém, aqui no céu, entendeu o significado, se é que tem algum; tudo que sei do teu país é que rebolam anualmente numa festa primitiva chamada carnaval e durante o ano passam chutando uma bola de couro em torneios de futebol. O que o faz pensar poder subir ao céu e importunar-me dessa maneira? São Pedro, disse-lhe eu, descontente com o duro ataque, quero fazer-te uma proposta. Como ousas, não estás em condições de negociar nada; tu és um pecador e vindo de onde vens só posso encaminhar-te diretamente aos braços do Caronte. Mas, são outros braços que desejo, disse-lhe com falsa firmeza. E argumentei: uma troca; para conduzir-me pelo inferno a Beatriz no lugar do Virgílio, embora o admire como poeta. Com que então pensar que posso entregar minha mais pura alma angelical em mãos tão pecaminosas? Ah, queres companhia feminina, não; claro, respondi, sou um admirador do eterno feminino. Pois terás. São Pedro chamou um querubim e disse-lhe algo em voz baixa. O querubim que me pareceu safado, desapareceu tão rapidamente como reapareceu trazendo um envelope. São Pedro o lacrou e disse-me: entrega para o Virgilio. E vai, falta muito ainda para entrares no céu, se é que em algum dia chegarás! Desci ao inferno e encontrei Virgilio cuidando de flores. Com um sorriso que mais lembrava uma razão cínica perguntou-me: conseguiste? Mandou-me entregar-te este envelope, respondi. O poeta o abriu e falou: melhor passarmos, antes, na antecâmara 01 para uma preparação adequada; e entregou-me o envelope. Quando li o nome, muito conhecido no país tão desprezado pelo São Pedro, exaltado disse ao Virgilio: é uma impossibilidade lógica. É ela ou o Caronte respondeu o poeta com determinação. Sem outra opção invoquei, então, minha condição de morto provisório e resolvi voltar à vida. Foi uma experiência tão malograda a me dar a certeza de preferir, mesmo cansado, de continuar com as alternativas da vida, mais variadas e sedutoras!

IV

Somos primatas de origem sem data. Espalhamo-nos pelos continentes antes deles existirem separadamente. Com cores e feições diferentes nos organizamos em grupos, sociedades, civilizações. Somos racionais e pensamos; temos sentimentos. Denominamo-nos seres humanos. Humanos, uma auto-significância e nada mais!

V

Começamos a vida numa bolha dentro de nossa mãe. Depois de certo tempo, a bolha explode, uma janela se abre e somos lançados num estranho mundo de luzes e sombras. Nascemos para morrer. Tudo que temos a fazer é sobreviver por pouco ou longo tempo. A vida é um caminho sem volta; termina sempre, logo adiante. Temos o temor da morte. Sabemos da vida, embora desconhecendo o seu sentido. Da morte, porém, só especulamos: irrevogabilidade, imortalidade ou ponto final. De certa forma nos transmitimos em partículas, formando uma cadeia de vidas sucessivas. Olhando de cima, vemos diferentes formas de vida e morte sob a curvatura do objeto cósmico que chamamos de planeta. Mas, ele, também, tem seu tempo de nascimento, formação e morte. É a lógica do Universo. Mas, que lógica é essa!

VI

Fiquei a pensar: e as relações entre as pessoas; há algo mais complexo e delicado? Pouco, na verdade, sabemos um do outro. Vivemos dois mundos distintos: o nosso próprio, o mundo interior onde se manifestam e se recolhem nossas emoções, sentimentos e ilusões; outro, o mundo exterior para o qual deixamos escapar nossas virtudes e defeitos sempre que concordamos ou não com o ambiente em que vivemos. Nosso comportamento é por conveniências, por vezes em consenso, outras em legítima contradição. A diferença se instala entre nós porque somos diferentes. É ela, a diferença, que traça os mapas cognitivos do pensamento e com ele a elaboração do conhecimento. Cada um de nós é uma entidade viva com desejos, aspirações, sonhos, bondades e maldades. Eis a complexidade e delicadeza no campo das relações humanas!

 

                                                                                              (janeiro/2009)

 



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