A HISTÓRIA NUMA SOCIEDADE EM TRANSIÇÃO


Publicado no site em 17/06/2008


Cláudio Francisco Accurso




Pronunciamento de Posse como Membro Efetivo do
  Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul
11 de junho de 2008.





Meus senhores e minhas senhoras:

Inicialmente, desejo externar uma saudação fraternal a todos os que comparecem a esta cerimônia. Meus profundos agradecimentos aos membros desta Instituição, que abrilhantam este evento e que tão calorosamente me acolhem em seu reduto. Também os agradecimentos aos amigos e parentes que trazem, com sua presença, o encanto de sua afetuosidade sempre estimulante.

Quando o nosso Presidente, Professor Gervásio Neves, amigo de mais de 50 anos, desde os bancos escolares da UFRGS, me sondou sobre minha aceitação em ser Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico, tive a sensação de que era muita guerra para pouco soldado. Da minha afeição pela História eu não tinha dúvida, mesmo porque já havia ensinado tanto História Econômica Geral como Formação Econômica do Brasil na Faculdade de Economia da UFRGS.  Por outro lado, sempre preferi, em meus estudos de Economia e em meu exercício profissional, abordagens de linha histórica em lugar dos modelos analíticos com base na matemática. Embora reconhecendo o valor metodológico desses modelos, sempre optei por ver relações seqüenciais dos fatos em questão em lugar de cômodas abstrações da realidade que permitem ilações nem sempre com aderência à mesma.

Uma coisa, porém, é gostar de uma forma de ver o mundo; outra é integrar-se numa instituição cuja finalidade é justamente cultuar essa forma e a reverência pelo seu construir. Na verdade, a minha aquiescência se deveu a duas razões. A primeira, ao convencimento de meu proponente sobre a utilidade de minha participação, o que foi visto por mim com certa suspeita em virtude dos laços amistosos que nos ligam. A segunda razão diz respeito à minha própria visão da História como conhecimento síntese de realidades tangidas por interesses os mais diversos e captados pelos saberes também diversos das múltiplas ciências cultivadas pelo homem, sobretudo as sociais. Entendi, assim, que minha formação acadêmica e minha experiência profissional poderiam servir de coadjuvantes nas indagações que esta Casa sugere e nas respostas que dela se espera. De qualquer forma, recebo esta investidura com muito orgulho, mas também com muita responsabilidade e o necessário comedimento.

Orgulho por poder conviver com homens de saberes singulares, com intelectuais, professores e pesquisadores que não se pouparam e não se poupam em revelar fatos que, pondo luz nas trajetórias que nos trouxeram até aqui, permitiram construir nossa identidade e revelar um pouco de nós mesmos. 

Sem história, ficamos sem seqüências e, sem as relações do trajeto, nos reduzimos a páginas de um livro desfolhado. Nos modismos da globalização, que nivela artificialmente interesses para que os mais fortes não tenham que enfrentar as múltiplas defesas que perenizam os mais fracos, especialmente as de natureza cultural, o conhecimento e o aprofundamento da história são sempre indispensável arma de afirmação soberana frente a recomendações estranhas ao nosso peculiar, servindo apenas para alimentar falsas inferioridades.

Poder estar próximo a estudiosos que obram a construção das origens de nosso acontecer é um privilégio pela inspiração que a convivência alimenta e pelo exemplo da busca incansável de revelações que tanto elucidam quanto surpreendem.

Mas essa investidura também traz responsabilidade, entre outras a do império da verdade, em que as inferências não sejam apenas de conveniências menores, mas que guardem legitimidade com os fatos identificados. Numa sociedade de interesses contrários, antagônicos, opostos, não há de se admirar de que cada parte tenha sua verdade, o que parece ser natural na interpretação ideológica irrecusável de cada um. As teorias sociais não dispensam as ideologias que as envolvem, porque se referem a um mundo não homogêneo, portanto de representações múltiplas. O que turba o entendimento é a verdade pretendida em busca de fatos, em que se manipula o real para que o falso ganhe verossimilhança. Essa já não é uma questão de ideologia, mas moral.

Pode parecer desconfortável admitir verdades dissidentes, mas isso é apenas o reconhecimento de que o mundo não é igual e de que não se está tratando de verdades abstratas ou doutrinárias, mas de verdades históricas. Esse império da verdade nos comove à tolerância intelectual e nos obriga a ver as análises e conclusões pela diversidade com que o mundo é feito. Isso também faz com que os interesses não se pretendam ocultos como se os homens pudessem despir-se dos mesmos.

O rigor que a verdade histórica exige está no próprio fato, em sua materialidade quantitativa e qualitativa, cujas exigências vão revelar a qualificação do investigador. Porém não nos iludamos, o rigor do circunscrito não há de iludir o juízo contraditório, cuja gênesis não está nele, mas na sua interpretação. Isso decepciona? Não, apenas mostra que a unanimidade não é afeita às ciências dos homens, tampouco à história.

Essa desafeição da unanimidade às ciências dos homens põe em tela outra questão que no fundo marca a diferença entre barbárie e civilização. Refere-se às dimensões pelas quais correm os interesses, de um lado, e o próprio ser humano, por outro, distinguindo-se naqueles o que é condicionado a um tempo e a um espaço, ou seja, à história, e o que sobrevive a ambos em sua caminhada eterna, que é o homem.

Os conflitos de interesses não podem afetar o ser humano em si, mesmo sendo este seu portador, porque simplesmente a transitoriedade que marca os interesses depende do permanente que é o próprio homem. A violência que marca a barbárie não os distingue e a solução dos conflitos sempre se faz em detrimento do que é permanente, ou seja, do ser humano. A civilização avança por sendas onde os conflitos podem ser superados por instituições mediadoras, em que a integridade humana é preservada independentemente das soluções encontradas. Assim, a falta de unanimidade, que ao longo dos séculos traduz interesses opostos, também contribui na modelagem de uma sociedade melhor na medida em que a busca de harmonização se faz por condutos de respeito humano.

A responsabilidade de fazer-se história ou ciência social reside não só na necessidade de precisão dos fatos a cargo da pesquisa séria e paciente, mas também na consideração permanente dos interesses que lhe fazem as versões, para que os falsos motivos não dificultem, primeiro, a inteligência dos mesmos fatos e, segundo, os avanços necessários a partir de suas lógicas. Uma postura rigorosa a respeito desses dois pontos será sempre de grande valor para entender-se as seqüências necessárias de cada momento.

Esta investidura também recomenda comedimento de quem chega, não só por respeito aos saberes dos que já estão e dos que por aqui já passaram nos quase cem anos de existência deste Instituto, mas também porque esta é uma Instituição que forma opinião, portanto induz a iniciativas em múltiplas direções. Parece prudente que as convicções forjadas desde aqui tenham a robustez de antecedentes sólidos e interpretações seguras, e que às certezas que tanto encantam o nosso produzir não se soneguem as dúvidas que só hão de fortalecê-las. Esse comedimento deve inspirar a perquirição incessante e incansável de modo a que sempre haja lugar para transformar o derradeiro e o definitivo em provisório, numa postura científica de que o absoluto é sempre um dado em trânsito.

Outra razão para o comedimento de um economista no seio de historiadores é a própria crise do mundo atual, em que a falta de respostas convincentes denuncia um silêncio que não se sabe se por ausência de teoria ou ausência de história. Pode ser que teorias existam, mas sem correspondência com os fatos, ou seja, com a história, ou, talvez, a ausência de história é que esteja dificultando uma adequação teórica. Ora, ausência de história significa apenas ausência de entendimento da constelação de interesse que perpetua um processo indesejado para o homem, em que a destruição do meio ambiente, a violência, o desemprego e a marginalidade social são seus sinais mais preocupantes. O conhecimento insuficiente ou pouco difundido desse processo, isto é, dos fatos, relações e interesses que determinam seu fluxo, torna-se impeditivo de sua explicação, ou seja, de sua teoria e, por conseguinte, de sua correção. Mas, por outro ângulo, a falta de uma teoria dificulta o alinhamento das questões que, elucidadas, dariam as respostas de que estamos carecendo.

A interdependência entre teoria e história mostra que os conhecimentos pontuais são importantes, mas reclamam ritmos comuns e certa estatura para constituírem tecidos que permitam generalizações de grande alcance. Generalizações como as reclamadas nos dias que correm, com graus de certeza que subsidiem mudanças seguras e efetivas. Sem dúvida, nossa aproximação com as universidades permitiria um diálogo que, apesar dos impasses para o deflagrar de novos saberes, tão reclamados pelas sombras que nos cercam, fortaleceria nossos ânimos para tarefas emergentes. É urgente incentivar a pesquisa para que novos elementos venham a enriquecer nossa base empírica em que fundamentamos nossas avaliações.

A ampla base de dados, mapas, informações, depoimentos e notícias existente em nossos arquivos, além da excelente biblioteca do Instituto, é um convite permanente para o encontro de caminhos desconhecidos e que, com toda certeza, estão fazendo falta nos desencontros dos dias atuais. Quando fazemos referência à crise que nos assola, não estamos pontificando apenas os desequilíbrios cíclicos da economia capitalista tão marcados por conjunturas alternativas, mas principalmente as mudanças tecnológicas que apontam para um mundo do não-trabalho, onde o desemprego irrecuperável não tem retorno, e os ajustes sociais para absorvê-lo não se desenham de forma tranqüilizadora. Estamos iniciando uma etapa, que há de ser longa, em direção a outra sociedade com outras relações sociais e com outros valores. Sem dúvida, será uma transição penosa.

Em função desse quadro, caberia uma pergunta: como o conhecimento de história pode ajudar na transição para uma sociedade futura? A sociedade não dá saltos, o que significa que sua diferenciação não se faz nem simétrica nem sincronicamente entre seus integrantes. Em sua estrutura, os componentes legais, institucionais, políticos, econômicos, tecnológicos, culturais, psicológicos, de valores, etc., não se movem com iguais velocidades e isso confere a natureza da nação, sua característica própria e sua forma de diferenciar-se. Cada um desses componentes está submetido a saberes específicos, porém é de sua soma que resulta o histórico, isto é, a forma nacional de plasmar o seu acontecer.

 Esse apelo ao passado não pode ser dispensado quando se pensa o futuro, porque as estratégias de cada momento contarão com elementos diversos marcando disposições que dizem respeito ao próprio ânimo nacional. Levá-los em conta minimiza o custo da transformação e diminui o tempo em que os transtornos da transição provocam seus sofrimentos. O conhecimento de nossa história deve estar presente, constituindo para todos nós um desafio dos maiores, nós que vemos as coisas dos homens sempre com interrogações de quem quer saber os porquês.



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