
SOCIEDADE DA CAPACITAÇÃO
Publicado no site em 06/06/2007
Euripedes Falcão Vieira*
As profundas e amplas transformações ocorridas na sociedade a partir dos anos 70 do século XX provocaram rupturas em diversas ordens da organização e prática da vida social, quase sempre, visualizadas, apenas, no dominante painel da ordem econômica global. Em tempo histórico ainda recente, as mudanças desencadeadas pela terceira grande revolução tecnológica (microeletrônica) ganharam força, impulso e ritmo suficientes para transpor, rapidamente, a autolimitação da sociedade industrial. De uma sociedade de fixidez tecnológica, de média a longa duração dos eventos e narrativas da vida individual e coletiva passou-se, na forte compressão do tempo-espaço, para a sociedade fluída, flexível, mudadiça, amparada nas novas tecnologias da informação e num conhecimento que se desenvolve em ritmo acelerado.
A transposição de época, transição lenta ou rápida, sempre abre espaço para nominações, conceitos e definições. As passagens de épocas nas revoluções tecnológicas das ferramentas para a mecanização e dessa à microeletrônica tiveram periodizações diferenciadas, com a mudança se processando em longa duração no contexto social. O grande diferencial da transposição de época vivida na presente atualidade é, sem dúvida, a rapidez transitiva da própria tecnologia signo e, a partir dela, as mudanças organizacionais, as fragmentações e os perfis de capacitação. Esse último diferencial motivou o sociólogo Sennett a chamar o presente histórico como Sociedade da Capacitação.
Há um cenário de fragmentação das instituições e dos valores que regem a vida das pessoas, induzindo-as a busca de novas capacitações. Os espaços econômicos são fragmentos globais de multipolaridade produtiva; as territorialidades exclusivas se fragmentam em compartilhamentos de gestão e poder transterritoriais; as instituições às quais se ligam os comportamentos e as dependências existenciais também se fragmentam em valores e símbolos que mais dissociam do que unem as pessoas; as narrativas de vida se fragmentam em recortes, momentos em tempo de contínua mudança. Não é sem razão que alguns pensadores contemporâneos recorrem em prazos cada vez mais curtos à tese da página nova, incitados pelo contínuo da mudança, do novo que chega sem que o anterior tenha envelhecido.
Sennet arrola três grandes desafios no mundo das incertezas desta e das próximas atualidades: 1) o tempo: como administrar as relações de curto prazo num contexto de instituições que não mais asseguram o longo prazo; 2) talento: desenvolver novas capacitações para atender às exigências de realidades em constante mudança; 3) descarte do passado: vivenciar novas experiências pelo desenvolvimento de capacitações potenciais. Esses desafios implicam em mudar as narrativas da própria vida pessoal. Não é uma tarefa fácil para as gerações que já tenham desenvolvido um tipo de capacitação, do qual se orgulham e dele não queiram abrir mão. Mas, certamente, as novas gerações, nascidas e inclusas na sociedade das incertezas, das múltiplas capacitações não terão dificuldades, pelo talento e o potencial de desenvolver novas capacidades, de desligar-se do passado, ainda que ele represente momentos bens próximos na decorrência da própria existência.
A sociedade da capacitação é a mesma sociedade do conhecimento e da informação. Quanto mais se desenvolvem as capacitações, quanto maior o conhecimento e a informação tanto mais impositiva a secular expressão de Schumpeter: destruição criativa. Nada permanece por muito tempo. Há um paradoxo lógico a orientar a evolução da civilização: destruir para construir. É a página nova. Para os tempos que se abrem é a ideologia do efêmero!**Doutor em Geografia. Bacharel em Ciências Econômicas
Ex-Reitor da FURG. Educador Emérito do RS. Membro do IHGRS.