
Beatriz Vasconcelos Franzen*
A vida religiosa na Região Platina1, ao longo dos séculos XVII e XVIII foi profundamente influenciada pelos jesuítas. Estes chegaram na região por volta de 1585. Dois eram enviados pela Província Jesuítica do Peru e cinco eram inacianos oriundos da Província Jesuítica do Brasil, convidados pelo bispo de Tucumán, Francisco de Victória, com o apoio das autoridades de Assunção e de Buenos Aires. O objetivo do convite era ajudar a pacificar os indígenas que, constantemente, atacavam os povoados espanhóis da região.
Os jesuítas do Brasil pretendiam criar uma missão ligada a sua Província2, mas quando chegaram à Córdoba (abril de 1587), após uma viagem cheia de peripécias, – inclusive um ataque pirata ao navio em que viajavam, no estuário do Rio da Prata –, encontraram os dois inacianos do Peru, com ordens de instalar uma missão no Paraguai, mas subordinada à Província Jesuítica do Peru. Contavam para isso com o apoio do soberano espanhol, Felipe II, que não desejava a união de empresas de Portugal e de Espanha em terras americanas, apesar de, na época, estar em vigor a União Ibérica (1580/1640).
Instalada a Missão do Paraguai, nela permaneceram três dos jesuítas enviados do Brasil, os padres João Saloni (catalão), Manuel Ortega (português) e Thomas Filds (irlandês) que se subordinaram à província do Peru. Os outros dois, os padres Leonardo Armínio e Estevão Grão, retornaram ao Brasil.
Em 1607, a Companhia de Jesus autorizou a criação da Província Jesuítica do Paraguai, com jurisdição sobre todo o território que hoje corresponde ao sul do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, sudeste da Bolívia (o Alto Peru, na época) e Chile3.
O estabelecimento do colégio, mais tarde, universidade de Córdoba, fez desta cidade a sede jesuítica da Província do Paraguai.
Graças aos colégios que foram sendo criados nas principais cidades da região (alcançarão o número de 10), os jesuítas passaram a desenvolver uma forte influência sobre a população local. Essa influência espalha-se das cidades aos campos, graças às missões levadas a efeito pelos missionários inacianos.
As missões consistiam em uma atividade religiosa de grande importância para as populações, quer urbanas, quer rurais, porém para estas últimas crescia o significado, pois, em geral, permaneciam isoladas no interior do território, onde a assistência espiritual era muito precária. A ignorância religiosa entre os camponeses era muito grande. Raras vezes compareciam às missas e, ainda, mais raramente recebiam os sacramentos. “No tiene de cristianos sino el nombre, y, la más de las veces, no llevan ellos este nombre nisiquiera con razón.” (Carta Ânua de 1750/56, p. 7). Nestas regiões, um dos maiores problemas era o vício do jogo, difícil de ser erradicado. Para superar estas dificuldades, saíam de tempos em tempos, dois padres, o missionário e seu companheiro, de um dos colégios para pregar missão. Percorriam grandes extensões, visitando cidades, aldeias, vilas e fazendas. Durante sete ou oito dias, em cada uma delas, desenvolviam atividades religiosas variadas: missas, pregações, confissões, procissões,... Toda a população era convidada a participar e as autoridades locais, tanto civis como religiosas, colaboravam no sentido de levar o povo a estar presente, pois a missão era entendida como importante instrumento de controle social. Segundo se deduz das crônicas jesuítas, os desvios de comportamento, adultérios, roubos, desavenças familiares, conflitos entre grupos rivais, tudo era solucionado, graças à ação do missionário que procurava apelar para os bons sentimentos, para o arrependimento dos pecados e ao amor a Deus.
Nas missões participavam os colonos, índios e negros, escravos e livres, homens e mulheres.
A documentação que utilizamos para nossa pesquisa foi basicamente as cartas ânuas da Província Jesuítica do Paraguai (1609-1762). Estes documentos, as cartas ânuas, são relatórios nos quais o provincial ou algum secretário, por ele designado, comunica ao Geral da Companhia de Jesus as atividades desenvolvidas naquela província durante o período abrangido pela carta. Estas, apesar de serem conhecidas como “ânuas”, correspondiam, às vezes, há dois, três ou mais anos. A carta de 1735/43, escrita pelo Pe. Pedro Lozano, S.J., descreve os acontecimentos de oito anos. O período de 1609-1762 não está coberto integralmente, pois em várias ocasiões, as cartas se perderam, não chegando a seu destino em Roma. Navios naufragaram e com eles sua carga, inclusive as cartas, ataques de piratas levaram os documentos para outras regiões – houve cartas levadas para a Inglaterra e que depois foram objeto de leilões –, outras formas de extravio ocorreram. Entretanto, apesar disso, os documentos existentes, quer os originais que estão nos arquivos da Companhia em Roma, quer as cópias (fotos dos originais) pertencentes à Província Jesuítica da Argentina, em seus arquivos em Buenos Aires, quer as cópias4 existentes no Instituto Anchietano de Pesquisas (IAP), em São Leopoldo, RS/Brasil, permitem-nos levantar os dados necessários para analisar o papel desempenhado pelos jesuítas na vida religiosa da sociedade colonial espanhola na Região Platina, onde atuava a Província Jesuítica do Paraguai.
No que se relaciona às missões, também chamadas de “Missões populares”, a carta que apresenta maiores detalhes é, sem dúvida, a de 1735/43, escrita pelo cronista da Província, na época, o também historiador5 Padre Pedro Lozano, S.J.6. Nesta carta, Lozano nos descreve a participação das mulheres em todas as atividades desenvolvidas durante as missões. O envolvimento das mulheres, fosse em Buenos Aires, Assunção ou outras cidades, era muito grande e chamou-lhe a atenção, posto que dedica-lhe muitas páginas. As senhoras, moças donzelas, brancas, índias e negras, livres ou escravas, destacavam-se pelo entusiasmo e fervor com que assistiam e participavam em todos os rituais. Também as penitências e disciplinas eram feitas e seguidas a risca pelas mulheres. Em Assunção, onde havia restrições à participação das mesmas, estas exigiram o seu direito “... se les tenia por menos capaces a ellas, que a los hombres, y ya que no se permitía su presencia adentro de la iglesia, no se podían contener de hacer la misma penitencia delante de las puertas del templo, azótandose publicamente.” (Carta Ânua de 1735/43, p. 131).
Foi necessário destinar, em Assunção, três igrejas para que as mulheres pudessem fazer suas disciplinas. Por ocasião das procissões de penitência, as mulheres se faziam notar pois, sabia-se que, ocultamente, por baixo de suas vestes, levavam ásperos cilícios e acompanhavam a procissão, caminhando descalças ou, quando calçadas, levavam milho ou pedras dentro dos seus sapatos. Também, por ocasião das festas religiosas, as mulheres tinham grande participação. Em 1740, quando das festividades em homenagem à canonização de São João Francisco Regis, as senhoras tiveram um papel muito importante, pois encarregaram-se da ornamentação das igrejas em Córdoba, Santa Fé e outras cidades, utilizando suas próprias jóias, anéis, braceletes, colares, broches de ouro, pérolas e pedras preciosas. Segundo Lozano (p. 74), todos os tesouros de Santa Fé, e “estes não são poucos”, foram usados para adornar os Santos. Mas, Lozano não se limitou a demonstrar a religiosidade das mulheres “distinguidas”, também, as senhoras da “plebe” são lembradas por ele. Catalina Flores era escrava do Colégio de Córdoba. Por sua vida edificante era vista com grande respeito por todos, servindo de exemplo para os outros escravos. Após a morte do marido, dedicouse à catequese “no solo de sus proprios hijos, sino también de los demás ninos negritos” (p. 86). Também, atendia aos enfermos e, por isso, por ocasião de uma peste que grassou na cidade, contraiu a doença “muriendo martir de la caridad”. Sua honradez e castidade causavam admiração. Segundo Lozano, “era una excelente sacristana, ofício reservado expresamente para ella” (p. 87).
Também as mulheres indígenas nas reduções não só são objeto de preocupação dos jesuítas no que se refere à sua salvação eterna como, também, as Cartas Ânuas procuram mostrá-las como exemplos de religiosidade feminina. A criação de Casas de recolhimento/refúgio nas reduções tinha como finalidade a proteção das órfãs e das viúvas, no caso destas, especialmente aquelas “que não dão bastante garantia de firmeza de caráter” (Carta Ânua de 1720/30). Segundo a Carta Ânua de 1720/30,
ali vivem elas, sob a direção de senhoras respeitáveis até que possam casar, como convém às cristãs. Não há perigo que as asiladas possam sofrer naquelas casas, porque nada lhes falta ali, havendo fundos comuns em cada pueblo para tais fins. Somente ficam incomunicáveis quanto ao contato com homens, havendo uma espécie de clausura, como nos conventos de monjas. Sua única saída é para a igreja e ao passeio, em companhia das diretoras. (p. 146-147)7
Deste modo, os jesuítas procuravam educar as jovens índias dentro dos preceitos da fé cristã, resguardar suas honras, preparando-as para um futuro casamento, da mesma forma que os pais das jovens européias faziam há muitos séculos. Ao mesmo tempo, procuravam manter a ordem e os bons costumes na redução “ya no hay escándalos públicos, ni privados...” (p. 146).
A prática dos Exercícios Espirituais era outra atividade religiosa que envolvia a todos, inclusive as mulheres. Após a missão, a fim de complementá-la e aproveitando o espírito de serenidade que a todos dominava, o missionário convidava a população para os Exercícios Espirituais.
Criados por Inácio de Loyola, o próprio fundador da Companhia de Jesus e seu Primeiro Geral, os Exercícios Espirituais buscam a perfeita união entre os homens e Deus na medida em que procuram através de orações e meditações alcançar o controle e a sublimação da carne e o discernimento necessários para atender aos seus objetivos: “vencer a si mesmo e ordenar sua vida (...) procurando como bons cristãos a salvação do próximo...”.
Também, em relação aos Exercícios Espirituais e sua pregação, Lozano dedica inúmeras páginas de sua carta de 1735/43. Mais uma vez, é com admiração que ele descreve a participação das mulheres nesta atividade religiosa. Outras cartas descrevem situações semelhantes, é o caso da Carta de 1720/30, cujo cronista comenta que os Exercícios Espirituais, pregados em Buenos Aires, resultaram em incalculável proveito. Ali, mulheres, já por si mesmas, inclinadas à virtude, se tornaram de tanto fervor, que resolveram aspirar a uma vida mais perfeita. Eram muito aficcionadas às penitências corporais, jejuns, disciplinas e cilícios, levantavam-se cedo para fazer suas práticas piedosas às quais se dedicavam várias vezes ao dia, e, também, passaram a guardar a castidade. (Carta Ânua de 1720/30, p. 98)
A carta de 1750/56 explica que apesar das dívidas dos colégios8, eles não deixaram de manter os Exercícios Espirituais: “sólo en el colegio de Córdoba”, durante os seis anos (1750/56) foram pregados os Exercícios a cerca de dois mil habitantes. Os outros colégios dentro de suas possibilidades fizeram o mesmo. O Pe. José Barreda, provincial do Paraguai, nesta mesma carta, escreve que graças ao fato dos efeitos dos Exercícios terem arraigado profundamente a virtude no coração de todos aqueles que tinham participado de sua pregação, muitíssimas mulheres não foram induzidas “a cosas torpes, ni por halagos, ni por amenazas, ni por ganancia.” (Carta Ânua 1750/56, p. 5).
Foram criadas casas para que os Exercícios Espirituais tivessem condições de serem desenvolvidos pelas mulheres em várias cidades, tais como Buenos Aires, Assunção e Tarija. Em Buenos Aires, a casa destinada às mulheres custou 20.000 pesos, a dos homens, junto ao Colégio de Belén, custou 50.000 pesos (Carta Ânua de 1750/56, p. 5). Em muitos casos, foi possível a construção destas casas graças a doações feitas por homens que tendo participado dos Exercícios entendiam que eles seriam importantes para suas esposas, filhas ou outras mulheres deles dependentes. Desenvolve-se, portanto, uma preocupação na sociedade com a salvação do outro, bem dentro do espírito dos Exercícios.9
Outras cartas, além da escrita por Lozano e das já citadas, demonstram este mesmo resultado dos Exercícios Espirituais. Na carta de 1644, o cronista declarava que o que muito chamava a atenção e contribuía para a estima do colégio e da Companhia era a edificante conduta de muitas senhoras “distinguidas”, que muito se aproveitavam da direção dos jesuítas para desenvolver sua piedade cristã e preferiam “mil veces morir que ofender a Dios. Son tan aficionadas a la oración y a la mortificación de los sentidos, y en el uso de asperidades corporales que pudieron avergonzar hasta a hombres más robustos.” (Carta Ânua de 1644, p. 4).
Na Carta de 1720/30, encontramos a seguinte informação: em Buenos Aires, muitas donzelas, em perigo de perder seu pudor virginal, foram recolhidas em casas de preservação sob a direção de uma senhora muito honrada, a qual havia oferecido para este fim sua própria habitação. Outras, já caídas, e convertidas depois, têm sido casadas honradamente, providas de um dote, proporcionado pela liberalidade de alguns “distinguidos” cavalheiros. O dote era indispensável para a mulher poder casar. Sem ele, dificilmente uma mulher encontrava um marido. Por este motivo, os pais, desde cedo, procuravam guardar al-gum bem ou propriedade que pudesse garantir o futuro casamento de suas filhas. As meninas órfãs ou cujos pais não tivessem condições de dar-lhes um dote, estavam destinadas a permanecer solteiras, como serviçais e, em muitos casos, transformavam-se em mulheres “caídas”, como diz a carta, daí a importância das casas de refúgio ou recolhimento10. Também a entrada nos conventos lhes era vedada, devido à falta de dote. Entretanto, Leila Mezan Algranti (2000, p. 102) afirma que, muitas vezes, a falta de dote não impediu a entrada de mulheres na vida religiosa. Muitas jovens prometiam donativos, mas não chegaram a pagá-los, por motivos vários: morte do pai, falência da família...
Porém, geralmente, havia alguém que se responsabilizava pelas despesas, especialmente quando a jovem demonstrava grande virtude. A Carta Ânua de 1720/30, informa-nos sobre um homem muito rico, que havia feito os Exercícios Espirituais e arrependido de sua anterior má vida, fez o propósito, durante os Exercícios, de destinar o dinheiro que gastava antes com as mulheres para dote de donzelas pobres. Fez levantar um edifício que servisse para Casa de Refúgio de jovens, expostas ao perigo de perder-se e colocadas ali sob a direção de algumas senhoras honradas (p. 98-99).
No decorrer de nossas pesquisas sobre a participação das mulheres na vida religiosa da sociedade colonial espanhola na Região Platina, chamou-nos a atenção que, em muitas cartas ânuas que consultamos, os cronistas se referiam às “Beatas da Companhia”. Mulheres que dedicavam a sua vida a atividades religiosas e de atendimento a órfãos, enfermos e outras ações de caráter benemerente, bem como orientavam as mulheres que faziam os Exercícios Espirituais, mantendo-as em suas próprias casas, geralmente nas proximidades dos colégios jesuítas. Diz Lozano: “lo que nosotros mismos no podemos hacer, esto hacen aquellas, llenas de entusiasmo por la glória de Dios, y la salvación de las almas.” (Carta Ânua de 1735/43, p. 80)
Mas, quem eram as beatas? Qual sua origem?
A partir da Baixa Idade Média11 e ao longo da Idade Moderna12, a vida religiosa com todas as suas características, tais como afastamento do mundo, serenidade, paz e a proximidade com o divino, sempre atraiu as mulheres cuja sensibilidade natural as faziam buscar esse tipo de vida. Os pais, muitas vezes, preocupados com a preservação da honra de suas filhas, expostas às maldades do mundo secular, colocavam-nas em conventos, onde se preparavam ou para a vida religiosa ou para um futuro casamento de acordo com sua condição social. Especialmente, após o Concílio de Trento (1545/1563) que tanto privilegiou a virgindade, estimulando que os homens e, especialmente, as mulheres buscassem manter esse status, a busca dos conventos por parte de jovens foi muito grande. Também, indivíduos adultos procuraram a vida religiosa, pois a Contra-Reforma tentou frear a inclinação para um segundo casamento de viúvos e, principalmente, de viúvas.
Entretanto, nem todas as mulheres desejavam ou podiam entrar num convento, pois ou não tinham condições econômicas para tal, o problema do dote, ou queriam viver de maneira mais completa sua espiritualidade, sem abrir mão de sua liberdade.
As beatas foram esse tipo de mulher. No mundo ibérico eram denominadas “beatas” mulheres solteiras de idade madura que se dedicavam à vida religiosa, porém sem entrar num convento. Retiravam-se da vida pública, recolhiamse em sua residência ou em uma casa de recolhimento, onde passavam o tempo em orações e dedicando-se a boas obras: educação das meninas, atendimento aos enfermos e produção de fios e tecidos, com a qual angariavam o necessário para seu sustento. Faziam votos de castidade e pobreza. Estas mulheres viviam na fronteira entre dois mundos, usufruindo da felicidade oriunda da união com Deus, mas preservando sua liberdade, a fim de melhor realizar a missão para a qual se consideravam destinadas.
A origem das beatas é pouco conhecida. “Alguns as associam com uma versão hispânica das ‘beguinas’, mulheres medievais dos séculos XII e XIII que, nos Países Baixos, principalmente, vestiam um hábito de ‘tela burda’ e cantavam a Deus sendo seculares.” (Espinoza, 2004, p. 3) As beguinas foi um movimento de mulheres que se manifestou dentro do panorama religioso da Baixa Idade Média, panorama este marcado por movimentos espirituais de renovação que defendiam e propagavam o abandono da Tradição, ou seja, buscavam uma nova ordem, não exclusivamente masculina, e o retorno ao cristianismo dos primeiros tempos (Alvarez, 2000, p. 30). No século XIV, o Manual dos Inquisidores as incluiu entre os hereges por considerar que sua forma de vida autônoma desafiava a Igreja (Espinoza, 2004, p. 3).
Elas, porém, continuaram existindo. Muitos fatores contribuíram para a persistência do modelo de vida livre das beatas. Desde o século XV, os franciscanos haviam popularizado o recolhimento como busca interior de Deus. Esta atitude atraía muitas mulheres, além disso, o misticismo do século XVI, que persistirá no século XVII, aumentou a influência social exercida por elas. O modelo de vida livre das beatas que permitia atender às inclinações religiosas de muitas mulheres sem a perda da liberdade, também, muito contribuiu (Espinoza, 2004, p. 8).
No mundo ibérico, a presença das beatas é bastante conhecida. Porém, em Portugal, especialmente, ao longo dos séculos XVI e XVII, a figura das beatas era, na maioria das vezes, identificada com a das visionárias, pois, por meio de orações, as beatas entravam em transe, em êxtase, diziam ter visões, visitar o purgatório, contatar com os mortos, com os santos, ouvir melodias celestes e falar com Deus. Nestes casos, a Inquisição, chamada a agir, exercia um papel importante no sentido de restringir a ação destas mulheres. Desconfiando de suas intenções e entendendo que em seu comportamento podia se ver as tentações das forças do mal, “a Inquisição exigia delas confissões regulares e a virtude da humildade (...) para os inquisidores, as visões das beatas portuguesas estavam muito longe das regras que a Igreja havia estabelecido para reconhecer a verdadeira santidade.” (Pieroni, 2000, p. 169-199).
Estas mulheres “viviam numa sociedade que as excluía de todo e qualquer poder, especialmente aquele de pregar ou de ensinar a religião” (Pieroni, 2000, p. 186), ações para as quais elas se consideravam destinadas por vontade e orientação divina.
Muitos dos casos denunciados ao Tribunal do Santo Ofício resultaram em degredo destas mulheres para as áreas coloniais do Império português, especial-mente Índia e Brasil.
Na América portuguesa, as beatas também se fizeram presentes. Entretanto, a necessidade de povoar o vasto território, fazia com que Portugal desenvolvesse uma política contrária ao envio de mulheres jovens para os conventos. Em 1721, o Conde de Assumar, capitão general de São Paulo e das terras de Minas, chamou a atenção das autoridades de Lisboa a respeito da saída de jovens donzelas que eram enviadas para os conventos de Portugal13 (Algranti, 2000, p. 99). Isto, na sua opinião, prejudicava o povoamento da colônia, onde as mulheres brancas eram poucas. Daí resultou o Alvará de 1732, no qual D. João V proibia a saída de mulheres para o reino, sem sua autorização. Elas deveriam permanecer no Brasil e casar para povoar a terra; não havia lugar para mulheres solteiras na América portuguesa.
Nas capitanias do sul, onde a escassez de mulheres brancas era ainda maior do que nas outras áreas da colônia, o celibato religioso feminino era insignificante. Segundo Maria Beatriz Nizza da Silva (1984, p. 25),
em S. Paulo [....] é certo que algumas mulheres faziam voto de castidade, mesmo vivendo no mundo fora dos recolhimentos, pois aparecem nas listas de população com a designação de ‘beatas’. Mas essas mulheres, que ou viviam sozinhas ou estavam agregadas em alguma casa, eram de idade avançada. Não se constatou a presença de ‘beatas’ jovens. (Grifos da autora)
Ocorre, porém, que muitas dessas mulheres deveriam ser viúvas, portanto, já haviam cumprido com sua obrigação de contribuir para o povoamento da terra, podiam, então, atender às suas aspirações espirituais.
É o caso de Joana de Gusmão, conhecida como a “Beata da Lagoa”. Henrique da Silva Fontes em “A Beata Joana de Gusmão” e Carlos Humberto P. Corrêa em “História de Florianópolis” nos falam desta mulher nascida em Santos, em 1688. Pertencia à importante família dos Gusmão, seu irmão Alexandre de Gusmão foi ministro de D. João V e o grande responsável pelo Tratado de Madri (1750), e o outro irmão, Bartolomeu de Gusmão, grande inventor, deslumbrou a corte portuguesa com o seu balão, daí ser conhecido como o “padre voador”. Depois de viúva, Joana abandonou sua casa e seus bens e entrou para a Ordem Terceira da Penitência. Em 1746, estabeleceu-se na então vila de Nos-sa Senhora do Desterro onde passou a dedicar-se à vida religiosa complementada por atividades de assistência social. Juntamente com outras mulheres da comunidade criou uma escola de ler e costurar para meninas. Sua preocupação em difundir a oração e o atendimento religioso da população levou à construção de capelas, a primeira na freguesia da Lagoa da Conceição, local onde desenvolveu sua atividade e daí o reconhecimento da população que lhe outorgou o codinome “beata da Lagoa”.
Desejando instalar outra capela, esta em Desterro, dedicou-se a levantar recursos para tal. “Desde o Rio de Janeiro até a Colônia do Sacramento levantou substanciais recursos...” (Corrêa, 2005, p. 66). A doação de André Vieira da Rosa, dez braças em quadro, possibilitou a construção desejada, “nela colocou a imagem do Menino-Deus que carregava consigo a todos os lugares que peregrinava e, ainda hoje, se encontra na igreja do Senhor dos Passos, junto ao Hospital de Caridade” (Idem, Ibid). Sua residência, além de ser objeto de admiração por parte de toda a população e abrigo para os desvalidos, era respeitada pelas autoridades. Segundo Corrêa (2005, p. 67) quando os espanhóis invadiram a ilha, em 1777, “sua casa continuou a ser respeitada como local sagrado e inviolável”. Faleceu em 1780, aos 92 anos de idade.
No mundo português, no século XIX, o termo beata passou a ter uma conotação pejorativa. No “Dicionário” de Morais (1813)14, Beata é definida como “mulher que faz vida espiritual com grandes mostras de devoção; de ordinário torna-se a má parte, por piedade de mais ostentação que sincera religião”.
Este conceito se manteve até os dias atuais, como se pode ver no “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa” (1986): “Beata: mulher que se dedica em excesso às práticas religiosas; mulher que finge devoção; mulher que foi beatificada”.
No Império espanhol, a presença das beatas parece ter sido muito mais freqüente. A religiosidade característica do mundo hispânico, onde a fé profunda era associada a um grande misticismo15, teria contribuído para o surgimento de figuras como Tereza de Ávila, na Espanha, Rosa de Lima, no Peru e Sóror Juana de la Cruz, no México. As duas primeiras consideradas santas pela Igreja16.
A educação feminina, à semelhança do que ocorria em Portugal, na época, especialmente entre os mais ricos (aristocracia), era feita em conventos. Ali, no ambiente conventual, era dada a educação considerada como a que melhor condizia com a posição social da jovem, preparando-a para a vida religiosa ou para o casamento.
Mas, não era só entre a elite que a formação das donzelas era objeto da atenção da sociedade. As meninas pobres também eram atendidas graças a doações de pessoas que buscavam através das boas obras praticadas agradar a Deus e, com isto, alcançar sua salvação eterna.
Também, na América Espanhola, havia grande preocupação com a honra das donzelas e seu preparo para a vida matrimonial ou religiosa. Em 1651, Fray Diego de Córdoba y Salinas escreve:
los primeros caballeros conquistadores del Peru, que entonces gobernaban la ciudad del Cuzco, determinaron de hacer una casa de recogimiento para mujeres mozas y doncellas pobres, donde viviesen con doctrina y virtud hasta el tiempo que, ligadas con el vinculo del matrimonio, se empleasen en el servicio de Dios y cuidado de su casa...” (citado por Alvarez, 2000, p. 44-45)
Na Espanha, onde a Contra-Reforma tornou-se verdadeira política de Estado – no período dos Felipes –, o celibato clerical era visto como um ideal a ser realizado por jovens e adultos. Porém, no século XVII, especialmente na segunda metade, como conseqüência de epidemias de peste, que ocorreram no país, o Estado buscou incentivar os matrimônios e aumentar os nascimentos, inclusive com prêmios de estímulo a famílias numerosas, não favorecendo o celibato e a entrada em conventos. No século XVIII, a subida ao trono dos Bourbons representou uma nova centralização governamental e uma preocupação com a manutenção da ordem social, fundamento do sistema político, o absolutismo. Com isto, há a necessidade de conter o relaxamento de costumes vigentes quer na metrópole, quer na colônia. Os casamentos passaram a ser controlados para impedir uniões mistas a fim de assegurar “o domínio das classes superiores.” (Ghirardi, 2000, p. 311-316).
Apesar de tudo, as beatas ainda se faziam presentes na Espanha, isto, talvez, tenha ocorrido porque, no século XVII, a emigração de homens para a América ocasionou a existência de grande número de mulheres abandonadas, sós e pobres.
Muitos autores apresentam as beatas como mulheres pobres e sem instrução, talvez a fim de caracterizá-las como fracas e ignorantes, porém, não era essa a condição de grande número de homens e mulheres dos séculos XVI, XVII e XVIII. O livro e sua leitura difundidos em larga escala propiciaram às mulheres o estudo dos ensinamentos religiosos da vida de Cristo e dos santos. A curiosidade intelectual e a busca do saber, que sabiam estar nas escrituras sagradas, levavam estas mulheres à prática da leitura, muitas delas estimuladas por seus confessores. Não foi por acaso que a Inquisição, no século XVIII, preocupou-se muito com a relação entre as beatas e seus confessores, considerando-os, muitas vezes, como incentivadores da conduta imprópria (na opinião dos inquisidores) destas mulheres (Espinoza, 2004, p. 11).
Solange Alberro17 define a beata, sociologicamente,
como uma mulher, principalmente, espanhola, urbana e solteira, passiva e que suporta a dor até os limites do masoquismo. Define-se pela sua vocação religiosa, com a qual teoricamente renuncia a sexualidade, porém que mostra abertamente as provas a que a submete sua condição de grande pureza ante as tentações do demônio.
Na América espanhola que, ao contrário da América portuguesa, desde o início da colonização, conheceu a instalação de conventos e casas de recolhimento18, a presença das beatas ocorreu com bastante intensidade. Isto apesar do processo político desenvolvido na metrópole refletir-se na colônia, havendo, também, períodos em que as autoridades procuravam refrear o celibato, especialmente o feminino, face à necessidade de povoar o território. Estas medidas encontravam, porém, grande resistência por parte das famílias da elite colonial que não aceitavam casamentos desiguais para suas filhas, preferindo enviá-las para conventos quer locais, quer na Espanha.
As cartas ânuas da Província jesuítica do Paraguai permitem identificar a presença das beatas naquela província. Esta presença, no Paraguai colonial, se faz notar desde o início do século XVII em número bastante significativo. Documentos informam que, desde 1600, em Santiago del Estero, La Rioja, Córdoba, Santa Fé, Assunção e Buenos Aires existiam beatas. Ali, estas mulheres se caracterizaram pela sua devoção, profundo espírito de fé e, muitas delas, pela dedicação à Companhia de Jesus, motivo pelo qual eram conhecidas como as “Beatas da Companhia” e sua religiosidade foi estimulada pela ação missionária dos jesuítas.
Nas cartas ânuas, as beatas são apontadas desde o século XVII. Em 31.12.1654, o Provincial, Pe. Lorenzo Sobrino, escrevia: em Santiago del Estero “um grande número de virgens consagradas a Deus viviam fora do claustro e eram chamadas de beatas. Não são inferiores às monjas claustradas, tanto por seu fervor na virtude, como por sua modéstia e recolhimento” (Carta Ânua de 1652/54: p. 26). E, em 23.9.1679, o Geral da Companhia de Jesus, o Pe. João Paulo Oliva, escrevia:
recebo notícias de que em Buenos Aires e outros lugares há mais de quarenta anos se introduziu um tipo de beatas que chamam da Companhia de Jesus: fazem votos de castidade, vestem uma túnica preta, vivem em suas casas com grande exemplo, comungam duas vezes por semana em nossas igrejas e são as pessoas mais nobres e exemplares da cidade. (Manciani, 1990, p. 45)
Ali, as beatas além de se dedicarem às orações, recolhidas em suas residências, empenhavam-se na educação das meninas, no atendimento de órfãos e enfermos e no enterro dos pobres.
A existência das beatas da Companhia é comprovada pelos vários Certificados de Beatas arquivados nos aposentos do Padre Reitor do Colégio de Buenos Aires, e encontrados por ocasião do seqüestro dos bens jesuíticos quando da expulsão19. Estas mulheres recebiam orientação espiritual dos jesuítas, faziam os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, algumas foram auxiliares das casas, onde eram dados os Exercícios “y muy probablemente encontraron en la espiritualidad ignaciana un sentido para su existência” (Fraschina, 2000, p. 197).
Na Carta Ânua de 1730/35, o Provincial, P. Jaime de Aguillar, S.J., ao se referir ao Colégio de Santiago del Estero, comentava que a prática dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, que se desenvolvia naquele colégio, alcançava excelentes resultados. Dizia, também, que, em 1733, uma senhorita de família “distinguida”, que juntamente com outras mulheres da cidade fizera os Exercícios Espirituais, ficara tão comovida que resolvera entrar para o convento. Como em sua cidade não havia este tipo de estabelecimento, buscara o Convento das Monjas, em Córdoba, distante 100 léguas de sua casa. Muitas outras jovens haviam seguido seu exemplo, do modo como podiam “pues no pudiendo entrar en el dicho convento, se alistaron entre las llamadas ‘Beatas’, haciendo voto de castidad perpetua.” (p. 92)
Este fato vem comprovar que muitas beatas eram mulheres que se dedicavam a essa vida por não terem condições econômicas para entrar num convento. A exigência do dote para a entrada naqueles estabelecimentos religiosos fazia a diferença.
Nesta mesma carta (p. 59), o autor destaca que a cada domingo cerca de quinhentas confissões eram feitas na igreja do Colégio e que nos dias de festas solenes, o número de confissões era mais elevado. Entre as pessoas que freqüentavam assiduamente os sacramentos, encontravam-se algumas mulheres que “ainda que de débil constitución, llevan una vida muy austera, practicando penitencias corporales”.
Para poder se dedicar mais comodamente a esta devoção, reuniam-se to-dos os anos, em época determinada, em uma capela, vizinha ao colégio, onde um dos jesuítas lhes dava os Exercícios Espirituais de Santo Ignácio. Havia, junto a esta capela, uma casa de Exercícios, administrada por duas senhoras das chamadas “Beatas” que se obrigavam, com o voto de castidade, a imitar as monjas claustrais, sem clausura. Estas duas, chamadas “mestras”, guardavam uma boa provisão de instrumentos de penitência, para emprestar às outras, quando vinham à capela para praticar as mencionadas devoções, fazendo elas estas penitências também durante o ano (p. 59). A casa dos Exercícios fora construída graças a
algunos habitantes de esa ciudad, que experimentando en sí mismos el buen efecto de los Ejercicios, lo querian proporcionar también a sus señoras y sirvientas. Por lo tanto recolectaron entre sí una suma de dinero, para poder comprar aquella casa; ya de sí muy espaciosa, para acomodarla todavia más perfectamente para ese fin por las indicaciones de nuestros Padres, subdividiéndola en tantas celdas, que cada una de las ejercitandas tiene su próprio aposento. Añadióse una capilla, cujas paredes están adornadas con pinturas, que representan diferentes escenas de la sagrada Pasión de Jesuscristo, y que son obra de un pintor romano. Además regalaron varias señoras cortinas de seda, para aumentar la elegancia del santuario. En esa capilla se juntan a su determinada hora las ejercitantes, para oir la lectura espiritual, leída por una de dichas maestras, a las cuales están encargada la administración temporal de capilla y casa. (Carta Ânua de 1730/35, p. 61)
É interessante observar o uso do título de “mestras”, utilizado por essas beatas, pois este era o título aspirado pelas beguinas que desejavam o retorno ao cristianismo primitivo no qual as mulheres, também, podiam exercer a pregação e eram denominadas “mestras”.
Porém, é nas cartas ânuas escritas por Pedro Lozano, S.J., no período em que este foi cronista da província, que encontramos referências mais consistentes a respeito das mulheres a quem ele designou de “Beatas da Companhia”. Na Carta Ânua de 1735/43, depois de relatar o entusiasmo das mulheres por ocasião das missões populares levadas a efeito pelo P. Inácio Oyarzábal, S.J., ocorridas entre 1738 e 1741, nas várias cidades da província, Lozano dedica algumas páginas para descrever a atuação das beatas da Companhia. A maneira como ele narra os fatos, nominando essas senhoras, demonstra que a presença e a atuação das beatas eram plenamente aceitas não só pela sociedade em geral, como, principalmente, eram reconhecidas pela Companhia de Jesus. É, talvez por este motivo, que alguns autores (Manciani, 1990, p. 45) chegam a designálas como uma ordem terceira dos jesuítas. Comenta Lozano20:
Dona Blanca Godoy era descendente de importante família de Córdoba de Andaluzia, nascida em Santa Fé de la Vera Cruz de la Provincia del Rio de la Plata. Esta senhora tinha tentado ir para a Espanha, em 1676, para entrar em um convento de monjas, mas seu navio naufragou no Rio da Prata. Ela retorna para Santa Fé. Ali fez voto de castidade, vestindo o hábito das chamadas “Beatas de la Compañia”. Foi sempre um exemplo de vida cristã inteiramente dedicada a Deus. Ao morrer deixou todos os seus bens para a Companhia. Sempre desejara fazer os Exercícios Espirituais e felicitava as mulheres das cidades, onde era possível fazê-los, e ansiava que também em Santa Fé isto fosse possível. Mas, somente no último ano de sua vida, pode satisfazer esse desejo e o fez com grande fervor e piedade. Faleceu com 74 anos em dezembro de 1734. Foi enterrada na igreja da Companhia. (Carta Ânua de 1735/43, p. 76-77)
Outra citada é Dona Francisca Quiteros que, após sua viuvez, vestiu o hábito das “Beatas de la Compañia”, dedicando sua vida a orações e obras de caridade. Suas cinco filhas donzelas a acompanharam. Viviam como se fossem religiosas, merecendo da população de Córdoba grande respeito. Sua casa era próxima do colégio, e passaram a viver distribuindo o tempo da mesma forma como os religiosos faziam no colégio. Recebiam em sua casa outras mulheres que queriam dedicar-se a Deus. Promoviam Exercícios Espirituais entre elas e como tinham maior experiência, animavam-nas a perseverar, resolvendo as dificuldades que se lhes ofereciam, ensinando a maneira de meditar e de levar vida regrada, repetindo-lhes o explicado pelo diretor espiritual. Dona Francisca educou seu único filho como se fosse um noviço, mais tarde, ele foi curapároco. Faleceu Dona Francisca no dia da festa dos Santos Mártires japoneses, em 1737, e foi enterrada na igreja da Companhia junto ao altar do santo de sua devoção, São Francisco Xavier. Suas filhas, seguindo-lhe o exemplo, viviam como religiosas à época em que Lozano escrevia a carta (Idem, ibid., p. 78/81)
Outra dama assinalada foi Dona Isabel Matia y Rangel, nobre senhora, que, após viúva, dedicou sua vida às boas obras, amando tanto a Companhia que, por ocasião de sua morte, em Buenos Aires, no ano de 1736, deixou seus bens em herança para a Companhia de Jesus. (Carta Ânua de 1735/43, p. 84).
A prática dos Exercícios Espirituais, pregada pelos jesuítas, foi de grande importância para a população das cidades das governações do Paraguai, do Rio da Prata e de Tucumán. Lozano comenta que
os (...) Exercícios de Santo Ignácio eram as armas mais poderosas com as quais, durante aqueles oito anos21, os jesuítas haviam combatido aos inimigos infernais. Não havia colégio, em que não fossem dados aos homens. Além disso, em Córdoba, em Rioja, no porto de Buenos Aires e em Santiago del Estero já, desde muito tempo, eram dados também às mulheres. (Carta Ânua de 1735/43, p. 35)
A expulsão dos jesuítas do Império Espanhol, em 1767, ocasionou uma falta considerável para a população habituada a sua orientação religiosa. Especialmente, a interrupção da prática dos Exercícios Espirituais causou um grande desconsolo. Foi precisamente, neste momento, que surge a figura de uma mulher que resolve levar avante a missão de continuar a pregação dos Exercícios Espirituais para aquela população sedenta de conforto espiritual. “Maria Antonia de la Paz y Figueroa, que ficou conhecida em toda a Argentina, onde nasceu e viveu, como a ‘Beata dos Exercícios.’” (Manciani, 1990, p. 35) (Grifos do autor). Pregando os exercícios espirituais, atravessou todo o território povoado na época, visitando as grandes e pequenas cidades, continuando a obra desenvolvida pelos jesuítas, acompanhada por algumas mulheres, e contando somente com um cavalo e uma pequena carroça. Contribuiu para a formação de comunidades religiosas, sempre com o objetivo de não deixar esmorecer o ânimo criado pelos Exercícios. No início, autoridades locais chegaram a chamá-la de louca, mas contou com apoio das autoridades religiosas e, com o tempo, conquistou também as autoridades civis que compreenderam o valor de seu trabalho:
A difusão dos Exercícios não foi difícil para Maria Antonia, porque conhecia muito bem o livro dos Exercícios Espirituais, que tinha estudado muito e no qual se tinha formado espiritualmente por muitos anos (...) em suas cartas dá a en-tender que é inspirada pelo Senhor, com o qual vivia uma intimidade muito profunda. (Manciani, 1990, p. 37)
Considerava que sua pregação era uma missão divina. Em seus pedidos às autoridades, ao solicitar licença para pregar, sempre assinava “Maria de S. José, Beata da Companhia”.
Depois de doze anos peregrinando e pregando pelo interior, Maria Antonia regressa para Buenos Aires onde ficará até sua morte vinte anos mais tarde. Ali, ela pretendia criar uma casa de Exercícios, que pudesse continuar no tempo sua obra. As dificuldades foram grandes, mas após meses de espera consegue as licenças necessárias para instalar a casa que logo, entretanto, mostrou-se insuficiente para abrigar todos que a procuravam para a prática dos Exercícios. Ho-mens e mulheres de todas as classes sociais acorriam em busca de conforto moral e espiritual. A casa vivia de esmolas que eram destinadas a atender aos que a procuravam. A ação de Maria Antonia estendeu-se também ao Uruguai (1788/ 91). Somente na Colônia do Sacramento deu dez retiros. Morreu em 1799. A respeito de Maria Antonia, escreve Alicia Fraschina (2000, p. 208): “si tuviéramos que resumir en una frase la personalidad de Maria Antonia diríamos que fue una contemplativa en accion. Praticó la indiferencia, el discernimiento y fue apóstol, su vida fue desde 1767, una constante misión.”
Conclusão
A participação das mulheres na vida religiosa na Região Platina constatada nas Cartas Ânuas da Província Jesuítica do Paraguai, nos séculos XVII e XVIII, ricas em episódios da História desta região, mostra-nos uma faceta da mulher, no período colonial, pouco conhecida. É uma mulher que exige o seu lugar na sociedade lutando contra os preconceitos, participando de atividades (mesmo que sejam religiosas) que, até então, eram consideradas como exclusivas dos homens, ameaçando açoitar-se em praça pública, caso não lhes fossem concedidas condições para a prática dos Exercícios Espirituais e suas disciplinas. Tomam atitudes – sem dúvida, com o apoio de seus conselheiros espirituais – que, muitas vezes, conflitam com os costumes da época, tais como, quando movidas por sentimentos religiosos resolvem abandonar a vida conjugal para dedicarem-se à vida espiritual, seja em conventos ou criando beatérios.
Negando o casamento ou a vida em convento, procurando preservar sua liberdade individual, estas mulheres estão buscando realizar a missão que acreditam ser o seu destino.
As beatas, analisadas a partir de nossas pesquisas nas Cartas Ânuas da Província Jesuítica do Paraguai, são mulheres respeitadas em suas comunidades, desenvolvem atividades como mestras de meninas e orientadoras de outras mulheres, durante os Exercícios Espirituais, ou como enfermeiras atendendo aos doentes. Sustentam-se com o próprio trabalho, fiando e tecendo, quando não têm maiores recursos financeiros. Estas atitudes grangeam-lhes respeito e admiração manifestos claramente nas cartas ânuas.
Uma das características das beatas era o seu misticismo. É o que os documentos, quer na Europa, quer no Peru e no México, nos mostram. Sempre que elas aparecem nas crônicas, seu misticismo se manifesta, pois se apresentam como intermediárias entre Deus, com quem dizem ter contato, e os homens. Foi por este motivo que a Inquisição sempre as viu com muito cuidado e, na maioria das vezes, como hereges. Porém, nas cartas ânuas consultadas, este caráter não aparece. Elas são apresentadas como mulheres de grande fé, espírito de dedicação, mas não há referências a misticismo. Entendemos que a intensa participação das “Beatas da Companhia” nos Exercícios Espirituais, na Província Jesuítica do Paraguai, teria contribuído para que estas beatas canalizassem suas tendências místicas no cumprimento dos objetivos dos Exercícios: “vencer a si mesmo e ordenar sua vida...” Desta forma, entendemos que o misticismo seria dominado pelo discernimento proporcionado pelos Exercícios Espirituais.
A Companhia de Jesus, reduto exclusivo dos homens, que nunca permitiu a formação de uma ordem religiosa feminina a ela ligada, já que a função de soldados de Cristo só podia ser exercida por homens, iria ter numa mulher, Maria Antonia de la Paz y Figueroa, nas terras longínquas da América, a guerreira que manteve erguida a bandeira da Cruzada à qual ela, a Companhia, tinha se dedicado.
* Doutora em História/Universidade de Lisboa. Profa. aposentada do Programa de Pós-Graduação em História da UNISINOS. Coorda. para o Brasil, no âmbito do Projecto “A Presença Portuguesa na Região Platina” vinculado ao Instituto Camões, Portugal. Membro da Academia Portuguesa de História e do Instituto Histórico e Geográfico do RS.
1. Região sob o domínio da Espanha, abrangia os territórios das atuais Repúblicas do Paraguai e Uruguai e áreas atuais do Sul do Brasil (interior dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina, o atual estado do Rio Grande do Sul e, também, o sul do atual estado do Mato Grosso do Sul), Centro e Norte da Argentina e SE da Bolívia. No século XVI correspondia à Província do Paraguai, no século XVIII, ao Vice Reinado do Prata (1776). Do ponto de vista geográfico, a região abrange a área banhada pela bacia hidrográfica, conhecida como bacia Platina, formada pelos rios Paraná, Paraguai, Uruguai e seus afluentes.
2. Província Jesuítica do Brasil criada em 1553.
3. A região do Chile, ainda no século XVII, constituiria, primeiro uma vice-província (1625) e, mais tarde, uma província independente. (PASTELLS, Pablo, S.J., MATEOS, F., S.J. 1912-1933, v. VIII, p. VI)
4. Para nossa pesquisa utilizamos as cópias digitadas existentes no IAP.
5. Obras de Pe. Lozano:
- História de las Revoluciones de la Província del Paraguay (1721-1735). Buenos Aires: Cabant y Cia., Editores, 1905. 2 v.
- Descripción... del Gran Chaco Gualamba, edit. em Córdoba/España, em 1737.
– Historia de la Compañia de Jesús en la Provincia del Paraguay, Madrid 1754-1753.
- Historia de la Conquista del Paraguay, edit. em Buenos Aires, em 1873/75, cento e vinte e um anos após a morte do autor.6. Ver meu artigo: FRANZEN, Beatriz Vasconcelos. As missões populares na carta ânua de 1735/43, da Província Jesuítica do Paraguai. Revista História Unisinos, Programa de Pós-Graduação em História, São Leopoldo, UNISINOS, n. 1, v. 9, p. 65-75, jan/abr. 2005.
7. Algumas descrições foram sintetizadas e traduzidas, mas sempre indicada a página da carta que utilizamos.
8. Na época, a situação dos jesuítas na Província do Paraguai apresentava-se bastante difícil devido aos problemas suscitados pelo Tratado de Madri (1750), a exigência da Coroa espanhola de abandonar os Sete Povos para os portugueses em troca da Colônia do Sacramento, agravados pela resistência indígena que resultou na Guerra Guaranítica (1754/56).
9. Ver no meu artigo já citado (Franzen, 2005), mais dados sobre as mulheres e os Exercícios Espirituais.
10. Casas de recolhimento ou de refúgio “são uma instituição onde se recolhem mulheres de diferentes estados, e vivem com clausura e observância da regente.” (Bluteau, Dom Rafael, In: Algranti, 2000, p. 100)
11. Séc. XIII-XV.
12. Séc. XVI-XVIII.
13. Na época, já havia, no Brasil, algumas casas de recolhimento e o convento de Desterro, na Bahia, fundado em 1677 com 50 vagas. Outros conventos seriam fundados na segunda metade do século XVIII. Mas, as famílias da elite preferiam mandar suas filhas para conventos em Portugal, pois os conventos existentes no Brasil, também, serviam de casas de correção e neles, a disciplina era muito fraca.
14. Citado por SILVA, 1984, p. 25.
15. O misticismo e a literatura mística foram fenômenos muito comuns no mundo espanhol da época.
16. Tereza de Ávila foi santificada em 1622 e Rosa de Lima, em 1671.
17. ALBERRO, Solange. Inquisición y sociedad em México, 1571-1700. México: Fondo de Cultura Económica, 1996, citada por CERVANTES, Gabriela Vallejo. Ana de Zayas, de Puebla de Los Ángeles. Los escorzos de uma falsa beata. In: BÜSCHGES, Christian, LANGUE, Frédérique (Coord.). Exluir para ser. Procesos identitarios y fronteras sociales em la América Hispânica (siglos XVII-XVIII). Espanha: AHILA-Iberoamericana-Vervuert, 2005. p. 137-161.
18. O primeiro monastério de Clarisas, fundado no Peru, foi o de Santa Clara de Cuzco, em 1564. Em sua origem foi uma casa de recolhimento para filhas mestiças que os conquistadores tinham tido com mulheres indígenas. Em Lima, o primeiro convento foi fundado em 1606. Nos primeiros anos da Colônia, no Peru, havia a proibição explícita da Coroa para a fundação de monastérios. Assim, no Peru, as primeiras expressões de vida religiosa feminina nasceram no espaço dos beatérios e casas de recolhimento. (ÁLVAREZ, “Mujeres religiosas...”, op. cit., p. 37)
19. Cf. P.S.Beguiriztain, S.J. Apuntes biográficos, cartas y otros documentos referentes a la Sierva de Dios, Maria Antonia de la Paz y Figueroa. Buenos Aires, Talleres Gráficos Baiocco, 1933, p. 8. (citado por Fraschina, op. cit., p. 197)
20. Em alguns trechos desta longa carta, sintetizamos e traduzimos os comentários do cronista.
21. “aqueles oito anos” refere-se a 1735/43. Durante este período descrito na carta, os jesuítas levaram a efeito várias missões que percorreram as governações do Rio da Prata, do Paraguai e de Tucumán.
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