Tiradentes
21/04/1886
Por muito tempo os escritores palacianos, devotados à escola do aulicismo, postas as esperanças na gratidão do paço, empenharam-se em adulterar por completo a grande significação de Inconfidência Mineira e em deprimir a memória de seus mártires.
A história cortesã logrou apresentar sob a mais falsa luz o imortal sucesso, sem contradita e sem protesto durante muitos anos, negando-lhe apaixonadamente não só o intuito ideal como o mais significativo valor histórico.
Só nesses últimos tempos é que a crítica histórica, servida pelos modernos processos científicos e estudando o movimento em todo o seu conjunto, nas suas origens, na sua duração e nos seus intuitos tem dissipado as falsidades conscientemente engendradas pelos pseudo-historiadores.
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Desfeitas pela crítica as mentiras das novelas oficiais, ressaltou em toda a sua natural grandeza o subido caráter da malograda conjuração mineira e definiu-se a extraordinária personalidade do mártir sublime-Tiradentes.
A restauração da verdade histórica, embora retardada, foi bastante para dar ao fato da conjuração mineira as proporções da mais grandiosa iniciativa do espírito liberal neste país e para vingar os ultrajes feitos à sagrada memória daquele que ocupa o primeiro lugar na já extensa galeria dos mártires da liberdade do Brasil.
Enquanto a rainha perversa, que mandou à forca o herói, e os algozes selvagens que o vitimaram decaem mais e mais perante a infalível justiça da história, que lhes abre lugar na galeria dos criminosos célebres, a figura de Tiradentes, o charlatão, o ignorante, o monomaníaco, como chamaram os literatos do paço, se ilumina, se engrandece, se imortaliza.
As comemorações cívicas em honra da sua memória, anualmente repetidas, constituem o julgamento definitivo da posteridade.
A glorificação não pode ser mais completa.
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Resta que aqueles que sentem-se alentados pelo mesmo ideal que apaixonou a grande alma de Tiradentes, reivindicando para a idéia republicana a glória do generoso mártir, reivindiquem também o imorredouro exemplo que ele legou.
O ideal é o mesmo; é preciso que os continuadores o sustentem com a mesma energia viril, com a mesma tenacidade histórica, com a mesma abnegação exemplar.
Eis o dever dos republicanos.
Seja essa a nossa última palavra comemorando hoje 94º aniversário da glorificação de Tiradentes.
CASTILHOS, Júlio de. Pensamento político de Júlio de Castilhos. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 2003.