NOTAS SOBRE A GRIPE ESPANHOLA
Moacyr Flores
Eu me lembro que minha mãe contava, quando eu era criança, que morria tanta gente que o governo proibiu os enterros durante o dia. À noite carroções percorriam as ruas da cidade recolhendo os mortos que as pessoas deixavam junto à calçada. Policiais acompanhavam os carroções, enquanto 16 presos da Casa de Correção recolhiam os cadáveres.
Contavam como anedota que, por engano recolheram um bêbado que dormia na calçada e jogaram dentro da carroça. Quando o veiculo passou pela praça do Portão, em frente do quartel do 8º Batalhão, o bêbado saltou da carroça gritando e a sentinela do quartel, largou a arma e correu para dentro do quartel, apavorado.
Outra piada é a da mulher que agarra e beija o vizinho. Ele exclama:
- O que é isto, vizinha?
- Vingança! Meu marido me disse que está com uma tal de espanhola.
Doutora Noemy Valle Rocha.Longas filas formaram-se na calçada da rua dos Andradas para receber os remédios contra a influenza espanhola, distribuídos gratuitamente pela Farmácia Carvalho. A Doutora Noemy Valle Rocha, com consultório à rua Sarmento Leite, atendia gratuitamente os infectados pela gripe.
As condições sanitárias mundiais eram péssimas, apesar das campanhas de higienização, havia epidemias cíclicas de sarampo, varíola, tifo, tuberculose, febre amarela e malária. Pela facilidade de contágio, a epidemia concentrou-se mais nas grandes urbanas. A Europa estava convulsionada pela I Guerra Mundial (1914-18). No início de 1918 a gripe atacou intensamente a população européia disseminando-se rapidamente pela África do Sul, Índia, Nova Zelândia e América do Norte. Em fins de julho a epidemia entrou em declínio.
Em agosto a influenza reapareceu mais violenta, cessando em janeiro de 1919.A gripe espanhola matou 20 milhões de pessoas em todo o mundo, ou seja, 1,5% da população mundial.
A espanhola chegou ao porto de Rio Grande na manhã de 3.10.1918, no vapor Itajubá, com 38 tripulantes doentes, que foram recolhidos ao lazareto. No dia 12, o vapor Itaquera com 32 tripulantes com influenza, atracou no porto de Rio Grande. O vapor Mercedes aportou em Porto Alegre, em 16.10.1918, com sete tripulantes doentes.
Um telegrama comunica que todos os ferroviários da estação de Marcelino Ramos estavam doentes.Com o agravamento da epidemia, o governo estadual pediu pelo jornal A Federação que não se fizesse romaria aos cemitérios para evitar contaminação. Os enterros passaram a ser realizados à noite para não provocar o pânico.
Em novembro fecharam os cinemas, cassinos, teatros, bares. A rua da Praia ficou vazia, o tráfego de bondes diminuiu e o silêncio era quebrado pelos uivos dos cães e pelo dobrar dos sinos das igrejas.Faltavam pão e leite, que eram distribuídos de casa em casa por entregadores em carroça. Os alimentos e a lenha, principal combustível da época, dobraram de preço. O limão, o quinino para baixar a febre, o óleo de rícino para limpar o doente internamente rarearam e encareceram. Até o frango que se criava no quintal das casas e servia para preparar a canja, alimento tradicional dos doentes, ficou com o preço nas alturas.
Em 30.10.1918, o presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros, pelo decreto nº 2380, criou o Comissariado do Abastecimento e Socorros Alimentícios com a finalidade de socorrer com alimentos aos domicílios doentes e sem remédios. O decreto dividiu a cidade em 25 quarteirões sanitários. Cada quarteirão possuía um médico, auxiliando por estudantes de medicina, que visitavam diariamente os doentes de seu quarteirão. Por excesso de burocracia, o Comissariado funcionou com deficiência. Religiosos ajudaram a socorrer os doentes pobres. A maçonaria e sindicatos operários distribuíram alimentos. As “damas de caridade”, com seus chás beneficentes que saiam na coluna social dos jornais, mantiveram-se ausentes com medo de contágio, bem como as “senhoras caridosas” da Cruz Vermelha.
Havia sete cemitérios em Porto Alegre: o da Santa Casa de Misericórdia, São Miguel, Protestante, São José, Beneficência Portuguesa, Espanhol e o Municipal da Tristeza.
Os coveiros adoeceram e os corpos se acumulavam no cemitério da Santa Casa. Abriram-se quatro valas, onde enterraram 258 corpos.No final de novembro epidemia começou o declínio. Desaparecendo totalmente em janeiro de 1919. Os cassinos, cinemas e teatros voltaram a funcionar, os cafés encheram de freqüentadores e “footing” retornou à rua da Praia e os alunos retornaram às salas de aula, restou na memória coletiva o medo da terrível gripe espanhola fez 1.316 mortos em Porto Alegre.
Para saber mais:
ABRÃO, Janete Silveira. Banalização da morte na cidade calada. A Hespanhola em Porto Alegre, 1918. Porto Alegre: Edipucrs, 1998.