Lua Nova


Publicado no site em 14/04/2009


Fernando Adauto

     No campo, as fases da lua são muito observadas. Comandam um grande número de atividades. A lua minguante é boa rara castrar, sai menos sangue; é boa também para podar e cortar árvores. Madeira cortada na lua nova caruncha, e cavalo enfrenado na nova fica babão. São alguns exemplos comprova­dos.

     Manoel tinha o mesmo nome do pai, conhecido estancieiro da região. Manoelito, como era chamado pelos familiares e amigos, formara-se em odontologia e montara consultório em 3agé. Bem relacionado, tinha muitos clientes. Pela sua origem, atendia um grande número de estancieiros e gente ligada ao campo. Alegre, trabalhava conversando sobre o tempo, bois, lãs e cavalos. Tinha presença de espírito, raciocínio rápido, era um bom papo. As observações campeiras eram freqüentes: "Esse inverno vai ser frio, tem muita flor branca no campo, sinal de geada".

     A enfermeira entrou no gabinete anunciando que o Seu Queno e a mulher aguardavam na sala de espera. Levou um susto - marcara para colocar a dentadura na Dona Candoca e não anotara na agenda. A dentadura não estava pronta. Seu Queno era um homem difícil, de pouca conversa e o 38 não saía da cintura.

     Pensando em que desculpa daria, mandou o casal entrar. Cumprimentou alegre, pediu desculpa e argumentou que acha­va melhor deixar o serviço para a próxima semana. Apontando para a "folhinha" pendurada na parede, mostrou a lua: era nova.

     - Não tinha me dado conta - lamentou-se.

     O sisudo marido nem argumentou, e marcaram a próxima data. Seu Queno deixou a mulher nas compras e foi para o café, conversar com os amigos. Voltando para a estância, aos solavancos, encordoando buracos no seu jipe Willys, assobiava seu tango preferido, "Sentimiento Gaucho". Olhava a Candoca de boca murcha e pensava: Ainda bem que o Manoelito é um guri campeiro; já pensou agüentar essa mulher babando?

     O homem do campo é puro, crédulo e, de certa forma, ingênuo. Muitos se aproveitam disso. Quantas vezes voltamos de Brasília como o Seu Queno, sem solução, mas satisfeitos?

Crônica publicada em junho de 1999


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