Livros e leitura no Rio Grande do Sul (séculos XIX e XX)


Publicado no site em 12/12/2008



Elizabeth Rochadel Torresini[1]


          Nas primeiras décadas do século XIX, a circulação de livros no mundo ocidental sofre  com a baixa industrialização, a inexistência de biblotecas, a falta de escolas e de professores.  No Rio Grande do Sul, em 1846, o presidente da província que informa o número reduzido de escolas e de professores revela o abandono geral da instrução pública e das 51 escolas públicas existentes para meninos e meninas. Com o incremento à alfabetização e à atividade tipográfica, as condições tornam-se mais favoráveis às habilidades da leitura e da escrita, importantes ao desenvolvimento e ao processo de industrialização. Os republicanos brasileiros, sobretudo os gaúchos, defendem a conquista da ordem e do progresso através da instrução. Assim, a prática da leitura e as novas formas de comunicação do conhecimento ganham corpo no século XX.


Venda de livros no século XIX

          As limitações regionais não impedem a circulação de livros em lojas, tipografias, armazéns, boticas e residencias de Porto Alegre e de outras cidades. Em agosto de 1829, José Justiniano de Azevedo oferece um ensaio de Alexandre Pope, através do jornal O Amigo Homem e da Pátria. Em 1833,  Antonio José Machado e Joaquim da Costa Silva, de Rio Grande, colocam à venda: Obra Política, de Benjamin Contant, Espírito da Legislação, de Montesquieu; Dicionário de Moraes (sic), Poesias, de Bocage, e a Retórica, de Quintiliano. O Recopilador Liberal (1835) informa que o Compêndio de Gramática da Língua Nacional, de Antonio Álvares Pereira Coruja, está à venda em lojas e boticas de Porto Alegre.  Mesmo durante os dificeis anos que antecedem e precedem a Revolução Farroupilha, a imprensa literária promove a circulação de livros, publica os famosos folhetins e divulga autores e obras regionais.


Gabinetes de Leitura

          Em 1830, funda-se em Porto Alegre o primeiro gabinete de leitura. Com razoável afluência de interessados, transfoma-se em sociedade secreta de cujos quadros passam a fazer parte políticos de diversas e conflitantes colorações ideológicas, diz Athos Damasceno Ferreira. Dissolvido em 1831, dá origem a mais antiga loja maçônica rio-grandense, a Filantropia e Liberdade. Em Rio Grande, o Gabinete de Leitura (1846), idealizado por João Barbosa Coelho, prospera de tal maneira que em 1866 muda-se para uma casa maior.  

          À frustração do primeiro gabinete, os porto-alegrenses respondem com mais tentativas: Gabinete de Leitura (1852), Gabinete de Leitura Porto-Alegrense (1854), da Firma Wanzüller; Gabinete de Leitura (1869), de Rosenhain, e Gabinete de Leitura Porto-Alegrense (1872), de Siqueira Coutinho e outros. Há mais iniciativas na província: Gabinete de Leitura de Joaquim Ferreira (1859), Pelotas; Gabinete de Leitura de Jozué José Barbosa (1873), Rio Pardo; Gabinete de Leitura de Canguçu (1881), Gabinete de Leitura de São Borja (1882) e Gabinete do Club Caixeiral de Bagé (1883).


Bibliotecas

          A Biblioteca Rio-Grandense (1878), primeira biblioteca gaúcha, nasce do Gabinete de Leitura de Rio Grande (1846) O acervo inicial, de 16.000 volumes, dá origem aos 450.000 títulos atuais. Em Porto Alegre, a Sociedade Partenon Literário (1868-1875) funda uma biblioteca de 6000 volumes. A Biblioteca Pelotense surge em 1875 com um acervo de 960 volumes. Hoje possui cerca de 230 mil volumes. As bibliotecas resultam da iniciativa privada: Rio Pardo (1873), São Gabriel (1876), Itaqui (1877), Biblioteca do Colégio Militar de Porto Alegre (1881), São Borja (1882), Bagé (1884), Jaguarão (1884) e Santa Maria (1886). No início do século XX, existe somente uma biblioteca pública no Rio Grande do Sul,em Porto Alegre. Fundada em 1877, torna-se a Biblioteca Pública do Estadol, em 1906. Hoje tem cerca de 180.000 volumes.


Lojas de Livros, Casas Editoras e Livrarias

          Considerando que a venda de livros não acontecia em locais exclusivos, é raro o emprego dos termos casa de livros, de editores, editora e livraria. Em 1879, A Gazeta de Porto Alegre (n.1) traz um anúncio da Loja de Livros de Gundlach e de seus de livros escolares e obras literárias. No mesmo ano, a Casa de Editores Ter Bruggen, depois Livraria Teuto Brasileira, oferece estoque de livros e de edições próprias, como o ensaio A Philosophia no Brasi, de Silvio Romero. Em pouco tempo, a Gundlach e a Teuto Brasileira enfrentam a concorrência das livrarias Americana (Pelotas, Porto Alegre e Rio Grande) e Universal (Pelotas e Porto Alegre).

          Mantendo-se saudáveis no século XX, as casas Gundlach, Americana e Universal deve-se a elas papel importante na difusão do livros, incluindo as edições de obras voltadas às escolas e aos cursos superiores.


Livrarias e Editoras no Século XX

          A Livraria do Globo, fundada em dezembro de 1883, cresce com rapidez. Depois de 1929, investe num projeto editorial próprio, om a Revista do Globo (1929-1967) e as suas famosas coleções. Sob o comando de Henrique Bertaso e Erico Verissimo , essas coleções tornam-se responsáveis pelo fabuloso impulso ao mercado editorial regional e brasileiro, durante as décadas de 1930 e 1940.

          Além da Globo, no centro de Porto Alegre podem ser encontradas: a Livraria Selbach com seus livros escolares; a Livraria do Comércio, especializada em cartonagem e livros em branco; a Livraria de João Mayer Filho, com obras em vários idiomas; a Livraria Central, também agente de jornais de moda, literários e científicos, além as mais recentes Kosmos, Gaúcha, Andradas, Nacional, Armando Pimentel, Porto Alegrense, Vitória, Coletânea, entre outras.


Tradição livreira do Rio Grande do Sul

          Com o aparecimento de outras importantes casas de livros ao longo do século XX, solidifica-se a vocação livreira rio-grandense. Em 16 de novembro de 1955, adotando o lema se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo, inaugura-se a Feira do Livro de Porto Alegre, na presença de jornalistas, leitores e  do público em geral. De lá para cá, todos os anos na Praça da Alfândega, renova-se o antigo (e histórico) amor aos livros e ao conhecimento humano neles guardado.


[1] Historiadora. Professora do Departamento de História da PUCRS.

Texto extraído de livro Impresso no Brasil: 200 anos de livros brasileiros, Editora da UNESP, organizado por Aníbal Bragança e Márcia Abreu. Lançamento previsto para novembro de 2008, durante o II Seminário Brasileiro sobre o Livro e História Editorial (RJ).



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